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Capítulo 4: Arbitragem Feminina

“Elas vêm com tudo, pode esperar!”


O futebol é apenas uma das muitas barreiras a serem vencidas pelas mulheres. O preconceito insiste em prevalecer, mesmo diante de tantos avanços, discussões e mesas redondas nas últimas décadas. Apesar de parecer mais comum, a presença feminina no esporte, em especial no futebol, parece incomodar demais o mundo masculino. Que o diga a pioneira na arbitragem, Léa Campos que, em plena ditadura militar, na década de 1970, lutou pelo direito de fazer o que queria, em termos profissionais. E até os dias atuais, com Edina Alves Batista, árbitra de competência reconhecida, mas que parece ter que prová-la isso em todas as partidas que comanda.

A mineira Léa Campos foi a primeira árbitra do mundo

imagem de internet

 

“Já passou da época das entidades pararem de iludir as mulheres na arbitragem”

 

Quem levanta a bola para denunciar preconceitos e manobras contra as árbitras é o ex-juiz Sálvio Spínola Fagundes Filho. Casado com uma juíza de futebol, o ex-árbitro aponta algumas ações que, embora aparentemente positivas, podem ser consideradas lesivas ao exercício das árbitras. “As mulheres são iludidas no sonho de estarem no campo e se realizando profissionalmente. Promessas e mais promessas e nada evoluiu na arbitragem feminina brasileira”.

Uma das principais dificuldades ou incoerências é o fato de ser exigido, da parte das mulheres, que alcancem os índices masculinos nos testes físicos, o que é quase desumano. Segundo Sálvio Spínola, é muito fácil para os homens apitarem os jogos femininos, por exemplo. Enquanto que para as mulheres apitarem os jogos masculinos, tendo que atingir as exigências físicas dos homens, é uma injustiça. “Já passou da época das entidades pararem de iludir as mulheres na arbitragem”.

Uma barreira a ser conquistada é a inexistência de uma comissão de arbitragem feminina, pois as medidas são formadas por homens. Ou seja, as mulheres da arbitragem são comandadas pelos homens, sendo que os casos de assédio não são raros. Tudo isso acaba  prejudicando o desenvolvimento profissional, criando frustrações não somente em referência às oportunidades de trabalho como também causando o cerceamento às realizações das mulheres que optaram pelo exercício da função de arbitrar no futebol, denuncia ainda Sálvio.

A despeito de todas as conquistas, ainda é muito comum detectar ações machistas que visam dificultar o acesso feminino ao mundo dos esportes. É uma luta inglória, mas necessária e, pouco a pouco, mais espaços estão sendo conquistados em todos os níveis, da prática esportiva às coordenações e direções de eventos e entidades, por exemplo. Muitas atletas têm pago um preço elevado, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento, ao direito de fazer aquilo em que acreditam e sonham alcançar. No entanto, se as coisas estão difíceis nesses dias, pode-se imaginar, então, em tempos remotos.

 

“Incompatível com as condições da sua natureza”

 

No dia 23 de março de 1883, em Crouch End, na cidade Londres, Inglaterra, aconteceu o primeiro jogo oficial de futebol feminino, de acordo com os registros da Federação internacional de Futebol (FIFA). Já no Brasil, o início da prática desta modalidade ocorreu entre os anos de 1908 e 1909, porém com times mistos, misturando homens e mulheres. Oficialmente, a primeira partida de futebol feminino teria acontecido em 1921, numa disputa dos times de dois bairros da cidade de São Paulo, Tremembé e Cantareira.

O fluxo, evidentemente, tinha de continuar. E o que se segue é uma luta legítima por direitos e reconhecimento da parte de quem encarou o desafio de encontrar o seu espaço, bem como de enfrentar os preconceitos e prejuízos tão comuns àqueles que se esforçam em vencer o comodismo e as regras estabelecidas uniformemente. O item mais comum, era ter que provar que capacidade não tem nada a ver com gênero, e o fato de ser mulher não poderia jamais representar inferioridade ou inabilidade para tal função. 

As mulheres brasileiras eram proibidas de praticar qualquer esporte, em especial o futebol, segundo o decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941, no governo Getúlio Vargas, que persistiu até o ano 1983, por se tratar de um esporte “incompatível com as condições de sua natureza”. O entrave legal foi revogado, e isso graças ao bom desempenho das mulheres que insistiram na busca de seus direitos de praticarem o esporte que desejassem. 

Com o passar dos anos, foram muitas as conquistas. E com dedicação e esforços redobrados, as mulheres têm buscado conquistar ocupar cada vez mais espaços num mundo masculinizado por demais. Elas têm demonstrado que não desejam apenas praticar o futebol, mas também arbitrá-lo, por que não? Se tudo é uma questão de capacitação, dedicação, aprendizagem, qualificação, então elas também podem exercer esse papel e, diga-se de passagem, sem dever nada aos homens. 

 As pioneiras tiveram que lutar em campo adversário e segundo as regras alheias. Além do mais, o domínio territorial era ferrenho e a torcida adversária era fator quase decisivo. Foram lances violentos, faltas desleais e muitas práticas fora das regras, mas o jogo tinha de ser jogado, mesmo em condições desiguais e comandadas pelos adversários do momento. Foram décadas de resistências táticas e físicas a serem vencidas. O placar começou a ser alterado, mas a situação ainda precisa de mudanças. Percebe-se, no entanto, o clima um pouco mais favorável.

 

“Sempre tentei jogar futebol com os meninos na escola, mas os professores me interrompiam e diziam que não era adequado...”

 

Toda torcida tem as suas cores, símbolos e ícones. Toda causa tem os seus heróis e suas sagas a serem recordadas e sempre recontadas. Com a arbitragem feminina brasileira também é assim. Um dos ícones a ser reconhecido é a figura da árbitra Asaléa de Campos Fornero Medina, mais conhecida como Léa Campos, a primeira árbitra de futebol profissional do mundo.

Léa Campos nasceu em Abaeté, Minas Gerais, mudou-se para a capital, Belo Horizonte, desde os 3 anos de idade. Na escola, apaixonou-se pelo futebol, mas era impedida pela legislação (e, é claro, pelo preconceito) vigente. Seus pais não aderiram à ideia da prática do futebol, levando-a a participar de concursos de beleza, nos quais saiu vitoriosa de muitos e que, curiosamente, acabaram favorecendo os seus sonhos. Foi numa dessas competições que ela conseguiu um trabalho na área de futebol, como relações públicas do Cruzeiro, o que reascendeu a sua paixão pelo esporte. Foi nesse período que Léa entendeu que poderia trabalhar com o futebol, se não como jogadora, bem que poderia ser de outra forma. Começara, então, a saga pela arbitragem. “Sempre tentei jogar futebol com os meninos na escola, mas os professores me interrompiam e diziam que não era adequado. Os meus pais diziam que não era coisa para meninas”.

Questões como se Léa foi ou não a primeira árbitra de todos os tempos, se tornam pequenas quando o assunto gira em torno das conquistas das mulheres que rumam à concretização de seus sonhos. Léa teve de “driblar” a legislação que proibia a prática do futebol, mas pelo entendimento dela, nada dizia em termos de arbitragem, conforme suas palavras: “Se eu tentasse jogar, seria quase impossível conseguir apoio para a causa, já que era contra a lei naquela época. Mas ser árbitra era uma forma de entrar no jogo. Não havia nada específico na legislação contra isso. As mulheres foram proibidas de chutar a bola, mas a lei não mencionava soprar apitos”.

De posse da coragem de lutar por seu ideal, a primeira árbitra de futebol do Brasil, desafiou, inclusive o poderoso presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), na época, João Havelange. A solução foi procurar o então presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici que, influenciado por um dos seus filhos (que era fã de Léa) acabou por forçar, junto à CBD, a autorização para que ela pudesse atuar como árbitra de futebol.

Léa Campos, a pioneira

imagem de internet

 

A carreira de Léa Campos durou 98 partidas, em várias regiões do país. Naquela época, a presença de uma árbitra, em boa parte das vezes, era tida como uma atração exótica, já que a curiosidade era a principal motivação para o público. Sua carreira foi interrompida após um acidente de ônibus, no ano de 1974, que quase a levou a amputar a perna esquerda. Sofreu mais de 100 cirurgias por conta do problema e teve que andar, por dois anos, em uma cadeira de rodas.

 

“O sonho da minha carreira sempre foi esse: trabalhar na série A”

 

Sem desmerecer o pioneirismo e as muitas lutas e conquistas de muitas mulheres, ao longo das décadas, vale a pena focar a atenção numa árbitra contemporânea, Edina Alves Batista, que estreou no dia 27 de maio de 2019, apitando uma partida de futebol masculino, CSA e Goiás. Era a realização do sonho da garotinha, filha de um caminhoneiro, que adorava esportes, especialmente futebol. Um evento como esse não acontecia, no Brasil, há exatamente 14 anos.

A paranaense da cidade de Goioerê resistiu à insistência dos pais que gostariam que ela aprendesse datilografia ou quem sabe pintura, afinal de contas, esporte era coisa pra homem. Embora eles nunca a tivessem proibido de praticar o que quisesse. Nos seus mais de 20 anos de carreira, ela tem a satisfação de corresponder ao que mais almejava. “O sonho da minha carreira sempre foi esse: trabalhar na série A. Um jogo. Era o que eu queria e nunca ia desistir”, afirma cheia de orgulho pela realização pessoal.

O percurso de Edina é muito semelhante às histórias das muitas mulheres, em todas a áreas, que buscam um espaço, de maneira específica, no lugar ou na função que escolheram ou se sentem inclinadas a assumirem. Os enfrentamentos foram constantes, difíceis e sempre muito desafiadores. A formação de Edina foi muito difícil, segundo suas próprias palavras: “Todo fim de semana a gente viajava para um lugar diferente para ter aula. Saía de madrugada e tinha que dividir o combustível e a alimentação. Foi bastante sacrificante, mas, quando a gente quer alguma coisa de verdade, isso não importa”. Como tudo na vida, há um preço a ser pago; e quando se é mulher, parece existir um ágio.

Para chegar a arbitrar, Edina teve de se dedicar completamente ao futebol, assumindo um cargo de secretária na Liga de Futebol do Paraná, chegando a assumir a presidência. “Quando nós, mulheres, queremos algo, basta dedicação. Somos boas em tudo”. Apesar de exercer a presidência, Edina não chegou a apitar jogos de sua Liga. “Sempre tive ética e, por isso, só trabalhava para fora. Nunca nos campeonatos que eu organizava. Sempre achei importante ter respeito e caráter”.

Ao saber que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) estaria contratando árbitros paranaenses para os seus quadros, Edina não titubeou e lá foi ela tentar a sorte. Ela teve que recomeçar, mas entendeu ser importante e, mesmo aos 34 anos de idade, abraçou o desafio de refazer o caminho dos seus sonhos. Como resultado de sua dedicação, esforço e competência, foi a primeira árbitra central do Campeonato Brasileiro da série A masculino.

Edina é respeitada pelo trabalho que realiza e afirma que os maiores desafios de sua trajetória têm sido travados fora das quatro linhas dos gramados. “Eu respeito os jogadores e gosto que me respeitem. Até agora tem sido mútuo. Não é fácil estar ali, é preciso estar preparada e saber conduzir a partida da melhor maneira”. Ela deixa muito claro que os resultados são consequências dos esforços e dedicações empregados e que, apesar das barreiras e das lutas, as conquistas acontecem e um dia tudo será muito bem resolvido.

Edina Alves Batista, árbitra da CBF e da FIFA

imagem da internet

 

A árbitra brasileira já apitou, inclusive na Copa do Mundo de Futebol Feminino da França, ocorrida em 2019. “Eu nunca sonhei em ir a uma Copa. Nunca na minha vida pensei nisso, mas surgiu essa vaga   e falei: ‘Vamos agarrar e levar o Brasil para o Mundial’. Estava concorrendo com quase 50 meninas de todos os países, só 27 foram selecionadas. Temos o melhor futebol do mundo e queríamos mostrar também que temos as melhores árbitras”. No entanto, apesar do sucesso alcançado, Edina reconhece que há muito ainda para ser conquistado, e um dos caminhos é a união de todas as profissionais em torno de seus objetivos comuns e o apoio irrestrito às novas companheiras que vão surgindo ao longo da estrada.

O recado é muito objetivo: segundo Edina, é preciso estar consciente de que a luta é uma realidade, e que nada cai do céu; é preciso ser persistente e correr atrás dos seus ideais e dos seus sonhos. Nada acontece por acaso, é preciso ir à luta. Às vezes, parece teimosia, mas é vontade de superação, pois vale a pena acreditar, indo até o final. “Eu só queria que as meninas nunca desistissem. Não vai ser fácil, mas é possível obter. Não ia vim jogo da série A se eu não corresse atrás. Mas se você ama aquilo que está fazendo e faz com qualidade, não é impossível. Cada jogo em que eu trabalho é uma vitória”, incentiva.

Os resultados estão cada vez mais evidentes, tanto na opinião das mulheres quanto dos homens. A cada ano, a presença feminina na arbitragem tem aumentado, especialmente nas escalas, mas também na procura por cursos e capacitações para árbitras e também para assistentes. O panorama é bastante positivo, mas isso não representa o fim do preconceito, infelizmente.

Nos últimos anos, as conquistas têm sido bastante expressivas, por exemplo, durante o Mundial de Clubes de 2021, tradicionalmente realizado no Catar, duas árbitras brasileiras, Edina Alves e Neuza Back, fizeram parte do trio de arbitragem que comandou uma das partidas entre as esquipes do Ulsan Hyundai e Al Duhail, decidindo o quinto lugar da competição. O trio foi completado com a argentina Mariana de Almeida. Foi a primeira vez que uma partida de futebol masculino oficial foi comandada por um trio 100% feminino. 

 

“As árbitras e assistentes de vídeo brasileiras conquistaram esse espaço com muito trabalho. O futuro só depende delas. Não existe limite para competência”

 

O simples fato de ser mulher jamais poderia ser elemento discriminatório, pois o que deve prevalecer é o esforço, a dedicação, o caráter e a capacidade de aprender, aliada à força de vontade. Todo e qualquer preconceito deve ser erradicado de todos os meios, inclusive do meio esportivo em todos os seus alcances. Aurélio Folha, ex-árbitro da Federação Paraibana, acredita na competência das mulheres para o exercício da arbitragem de futebol. “Felizmente, o avanço da arbitragem feminina está crescendo a olhos nus, pois a pouco tempo somente víamos mulheres atuando nos grandes centros, como São Paulo e Rio. Fico feliz de constatar que agora, em todas as federações estaduais existem árbitras e assistentes. Isso é muito bom, e a tendência é aumentar e melhorar a cada dia, pois esse é o propósito da FIFA e, consequentemente, das Confederações. Aceitando e desenvolvendo essa proposta, dando oportunidade a todos e a todas”.

Resistências e preconceitos à parte, cabe às mulheres, principalmente, acreditarem em si mesmas e desenvolverem seus talentos. No caso, dedicação, suor e luta para alcançarem seus objetivos, como reconhece o chefe de arbitragem da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Leonardo Gaciba: “As árbitras e assistentes de vídeo brasileiras conquistaram esse espaço com muito trabalho. O futuro só depende delas. Não existe limite para competência”. 

Difícil é não reconhecer a competência feminina em qualquer área da vida. Elas têm uma dedicação ímpar, segundo as palavras do ex-assistente aspirante à Fifa, Jucelino Miranda: “As mulheres não somente podem, como devem apitar futebol, sim. Apesar do teste físico ser muito forte, elas merecem uma oportunidade. Até onde já assisti, sou testemunha viva de que elas foram muito bem; ainda não vi e nem ouvi de algum problema sério causado por uma mulher em jogos arbitrados por elas. Se bem que erro não escolhe sexo, não é verdade?”

Um dos critérios a ser considerado não é, necessariamente, o intelectual, mas o físico, como observa o ex-árbitro maranhense Jackson Pereira Silveira: “O futebol, em nosso tempo, exige bastante do físico e, num jogo de 90 minutos ou mais, especialmente nos grandes clássicos, é exigido demais. Porém, essa questão só o tempo dirá quem tem razão, não é verdade?”. Resta, então, esperar pra ver, como diz o ex-árbitro, como será que os próximos atos desta peça vão se mostrar. 

A suposta desvantagem física tem sido superada pela dedicação e, apesar da alegada falta de condições, as mulheres têm avançado e correspondido às expectativas. Muito embora tenham sido aposentadas precocemente, em muitos casos, antes da idade limite que a Fifa tem estabelecido, que é de 45 anos. Cláudia Guedes, árbitra brasileira que apitou na primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino, na China, em 1991, reclama do tratamento dado às mulheres nesse quesito: “Os dirigentes nacionais de arbitragem não deram o devido reconhecimento e valor ao potencial das árbitras, ao contrário de outros no futebol e na imprensa, que sempre prestigiaram meu trabalho”.

É importante que se reconheça o papel imprescindível das pioneiras, pois foi assim que as mulheres puderam chegar até o presente momento, apesar de ainda terem um campo imenso a ser conquistado. Como se não bastassem os assédios, moral e sexual, sofridos por simplesmente serem mulheres, as árbitras e assistentes ainda se veem atingidas pelo fator idade, o que beira ao absurdo, conforme os testemunhos e, na maioria das vezes, sendo aposentadas no auge de seus desempenhos, mesmo não tendo atingido a idade limite.

Por sua própria natureza emocional, o futebol mexe com as emoções de maneira única. É uma paixão quase irracional e, como tal, é muito comum se constatar bons e maus comportamentos de toda parte. Em pleno Século XXI, ainda é possível se ouvir comentários, como o de Daniel Campelo, num programa de rádio, quando foi questionado sobre a participação das mulheres no futebol e, especificamente na arbitragem. “Não acho uma boa, não. Acho que mulher tem que tomar conta da casa, e do marido e dos filhos”. Pensamentos como esse é melhor lançar no campo do esquecimento.

Apesar de todas as barreiras e lutas, as mulheres atuantes na arbitragem do futebol têm alcançado os seus intentos, pelo menos é o que se pode constatar pelos noticiários. As entidades que dirigem o esporte mais popular da terra têm se dobrado ao talento feminino, inclusive com bastante frequência. Por exemplo, depois de 92 anos de história, a Copa do Mundo de 2022, que foi realizada no Catar, nos dias 21 de novembro a 18 de dezembro de 2022, contou (finalmente) com a participação da arbitragem feminina, e já não era sem tempo.

Neuza Back, árbitra da CBF e da FIFA

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Três árbitras estiveram presentes no maior evento futebolístico internacional: a francesa Stéphanie Frappart, a ruandesa Salima Mukansanga e a japonesa Yoshimi Yamashita. Também estiveram presentes três assistentes: a mexicana Karen Díaz Medina e a americana Kathryn Nesbitt. A terceira foi, para nossa alegria e orgulho, uma brasileira, a Neuza Back, de comprovado talento, capacidade e técnica. De acordo com o presidente do Comitê de Arbitragem da FIFA, Pierluigi Colina, é um justo reconhecimento ao talento, técnica e profissionalismo das mulheres: “A escalação delas conclui um longo processo, que começou há vários anos, com a presença de árbitras nos torneios juniores e seniores da FIFA. Desta forma, enfatizamos que é a qualidade que conta para nós, e não o gênero. Espero que, no futuro, a seleção de árbitras de elite para competições masculinas importantes seja percebida como algo normal, e não mais como excepcional”.

 

“Eu não quero receber benefícios ou ser escalada porque sou mulher. O que estou conseguindo agora é reconhecimento pelo meu trabalho”

 

Algumas pessoas, é claro, se destacam em razão das lutas que são travadas, sobretudo quando se trata de questões estruturais, como o feminismo, por exemplo. A batalha feminina é muito forte e não permite o menor descuido, o que pode representar um enorme retrocesso e a perda de espaços importantes que já foram conquistados, e a custos muito elevados. Não se trata, conforme depoimentos, de apenas ser mulher, mas possuir competência e fazer jus, portanto, àquilo a que se propõe, como afirma a árbitra francesa Stephanie Frapartt, que atuou na final da última Copa Feminina: “Eu não quero receber benefícios ou ser escalada na Ligue 1 porque sou mulher. O que estou conseguindo agora é reconhecimento pelo meu trabalho”. Atitudes como essa vêm sedimentar o discurso de uma causa justa e necessária, coroando o esforço empreendido ao longo do tempo por todas as meninas. 

Para alguns, pode até ser uma questão excêntrica, mas se faz necessário um senso de equilíbrio e um desejo de justiça permitir que todos e todas possam lutar e alcançar os seus sonhos, independentemente de rótulos ou condições estabelecidas por conta de gênero, condição social, política ou socioeconômica. Competência não tem sexo, cor, preferência ou condição; é tudo uma questão de esforço, oportunidade e vontade de vencer.

Árbitra Francesa Sthephanie Frapartt

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Quando superações acontecem, muitas outras se tornam possíveis, sobretudo as que direta ou indiretamente estão interrelacionadas como, por exemplo, o caso dos comentaristas, narradoras e analistas de arbitragem na televisão, no rádio e na internet. É o caso de Nadine Bastos, ex-assistente do quadro da Fifa, que atua na Central do Apito, como comentarista de arbitragem durante as partidas de futebol numa emissora conhecida. É uma conquista alavancada pelo movimento da arbitragem feminina, certamente. “Estou muito feliz por fazer parte da equipe de comentaristas de arbitragens da Globo. É um novo momento na minha vida, um novo ciclo na minha carreira. Estou bem motivada”, declara Nadine. No mesmo sentido, veio também a ex-árbitra Fernanda Colombo. 

Longe de um ponto final, a saga da arbitragem feminina ainda trará muitas emoções, descobertas, alegria e apreensões, certamente. Nada mais natural, em se tratando da humanidade.

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