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Capítulo 1: Bolas, uniformes e um livro das regras utilizadas

A paixão pelo futebol mexe intensamente com o povo brasileiro, a ponto de, durante os jogos da seleção brasileira em copas do mundo, as empresas concederem folgas aos seus funcionários para acompanharem as transmissões dos jogos. O Brasil já sediou duas copas do mundo. A primeira foi em 1950, quando foi vice-campeão, perdendo para a seleção do Uruguai (2 a 1); e em 2014, quando foi vergonhosamente desclassificada, nas semifinais, pela Alemanha, com o placar de 7 a 1, no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Ao longo do tempo, o futebol foi se aprimorando cada vez mais. Todo o sucesso alcançado se deve a uma série de fatores, como a profissionalização dos clubes, investimentos em tecnologia, o avanço de técnicas e táticas que favorecem a boa prática, bem como o investimento nas categorias de base, nas quais os atletas são “descobertos” e incentivados à profissionalização. Outro fator, é a participação de uma personagem muito importante para a prática do futebol, mas que às vezes passa despercebida ou, quando as coisas não funcionam como deveriam, acaba se destacando negativamente: a pessoa do árbitro, o conhecido e popular juiz de futebol.

O árbitro é indispensável à realização de uma partida de futebol, seja ele ou ela amador ou profissional. É o responsável pela aplicação das regras do esporte, contando com a ajuda de dois árbitros-assistentes (também conhecidos como bandeirinhas), que atuam nas laterais do campo com a finalidade de auxiliar o principal. As partidas oficiais de futebol também contam com a presença de um quarto árbitro (juiz auxiliar), cujo trabalho consiste no apoio ao árbitro central nos detalhes administrativos durante a partida e ainda o auxilia quando das substituições de jogadores. Desde agosto de 2016, o futebol passou a contar com mais sete pessoas que compõem o VAR (Vídeo Assistant Referee – sigla em inglês), com o objetivo de ajudar a resolver as questões polêmicas que ocorrerem durante o jogo. 

Discussões à parte, o trabalho de um árbitro de futebol é bastante desgastante e desafiador, uma vez que consiste em não somente aplicar um conjunto de regras. Além de acompanhar a correria, tendo sempre que manter a atenção redobrada, esse profissional precisa julgar, em boa parte, as intenções dos atletas e tomar uma decisão em questão de segundos e como não poderia deixar de acontecer, sempre há o risco de má interpretação ou mesmo ainda o de cometer erros crassos. Torna-se, portanto, uma atividade bastante propensa a um esgotamento físico e também emocional. E tudo isso, evidentemente, sem contar que muitos olhares, sejam da imprensa especializada, dos dirigentes e dos torcedores, estão atentos, observando e julgando o seu trabalho. O ambiente torna-se, então, muito delicado e, ao mesmo tempo, tenso. Como explicar o apego por uma tarefa tão árdua, na qual não há tempo e nem espaço para se construir uma tese ou um arrazoado, ou se possa defender um ponto de vista, já que é necessária uma tomada de medida imediata? Sua decisão, a toque de caixa, pode ser objeto de uma tremenda injustiça, pois uma pequena falha pode definir uma partida e até mesmo um campeonato inteiro. Não é tão usual, mas o trabalhar de uma temporada, por uma ou mais equipes, pode se tornar um pesadelo por conta de um erro de arbitragem.

 

“O gosto realmente é pelo futebol”

 

Arbitrar uma partida de futebol pode representar a capacidade de administrar uma série de dificuldades, desde a falta de estrutura, passando pela ausência de profissionalismo de dirigentes e as paixões tão acirradas dos torcedores e simpatizantes. Entrar em campo, da parte do árbitro é lançar-se à sorte, é limitar-se a torcer por um desempenho satisfatório, uma vez que agradar quase nunca é possível. Nas palavras de José Marcelino Tavares de Miranda, pernambucano sediado em Imperatriz, Maranhão, desde o ano de 2002, quando escolheu abandonar a arbitragem e dedicar-se à profissão de engenheiro civil, “tudo pode ser explicado por uma questão de paixão pelo esporte; algo inexplicável, mas que se traduz no prazer de realizar um sonho tão almejado, que custa um bocado, mas que vale a pena cada risco corrido”.  Marcelino Tavares foi apresentado ao futebol pelo irmão, Fernando Tavares, que o levava aos estádios todos os domingos, à tarde, para assistir as partidas do Sport Club do Recife, o “Leão da Ilha”, assim designado pelos seus torcedores.

“Bolas, uniformes e um livro das regras utilizadas”
 

O futebol é uma das maiores paixões do mundo esportivo. Reconhecido em todo o planeta, esse esporte tem alcançado números extraordinários, seja de praticantes ou de cifras econômicas. A razão de tanto sucesso pode ser explicada de diversas maneiras e, certamente, uma delas é a solidez das regras e sua manutenção ao longo dos anos. 

Existem registros que apontam a China como responsável pela criação de um esporte que se assemelha ao futebol, por volta do século III a.C., que era praticado por militares, de acordo com manuais encontrados. Os soldados chineses se entretiam com uma modalidade que consistia em chutar uma bola feita de couro, tendo em seu recheio uma porção de pelos e penas de aves. Era denominado de “Tsu Chu” e tinha o objetivo de chutar a bola através de uma abertura. Já os gregos praticavam, na antiguidade, um esporte que pode ter igualmente influenciado o surgimento do futebol. Era o que chamavam de “Harpastum”, jogado dentro de um campo retangular, cuja finalidade consistia em passar a bola por cima da linha para o outro lado. Apesar de não serem reconhecidos como ancestrais do futebol, certamente existe alguma razão para se creditar a eles uma certa influência no surgimento desse esporte. O futebol moderno, segundo historiadores, teria surgido na Inglaterra, por volta do ano de 1863, com a Football Association, sediada em Londres, quando foi iniciada a profissionalização do esporte mais popular do mundo.

No Brasil, o futebol chegou já no final do século XIX, trazido pelo inglês Charles Miller, um estudante paulista que, num retorno da Inglaterra, trouxe em sua bagagem diversos artigos esportivos, como: bolas, uniformes e um livro das regras utilizadas na prática do esporte. No começo, era uma atividade elitizada, mas logo depois tornou-se extremamente popular, alcançando todas as classes sociais do país. Atualmente, o Brasil se mostra uma das grandes potências do futebol, sendo a única seleção a possuir cinco títulos mundiais em copas do mundo (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002) e é também o único país a participar de todas as edições do torneio, até então realizadas pela Fifa, o órgão que atualmente controla o futebol profissional no mundo inteiro. Os clubes brasileiros de futebol possuem 11 títulos mundiais e 19 títulos da Copa Libertadores da América, além de terem vencidos muitos outros torneios.

Charles Miller, inglês que trouxe o futebol ao Brasil

Aos 9 anos de idade, Marcelino Tavares viu o maior jogador de todos os tempos, o Rei do futebol e jogador do Santos Futebol Clube, que veio jogar em Recife: “Na época, era o Campeonato Nacional, era 1972 ou 1973, não lembro bem. Eu fiquei maravilhado, bem impressionado com aquele estádio cheio, além da presença, é claro, do Pelé, uma lenda viva do futebol”. O estádio referido é o famoso Ilha do Retiro, de propriedade do Sport Recife. Nessa ocasião, se consolidou uma paixão intensa pelo esporte mais universal do planeta por parte daquele garoto. O desejo inicial era ser um jogador de futebol, sonho que não se confirmaria por razões técnicas, segundo o próprio entrevistado.

Marcelino repete que “o gosto, realmente, é pelo futebol. Lógico que a arbitragem é decorrência”. Caçula de uma família de quatro irmãos, o filho de Dona Consuelo e de Seu Jerônimo ainda se recorda, com bastante saudade, das programações esportivas que frequentava, e que o levaram a trilhar uma função que, pelo menos, o manteria ligado ao futebol, apesar de todos as dificuldades enfrentadas.

Jackson Pereira da Silveira, maranhense de São Domingos do Maranhão, também se declara um fanático por futebol. Escolheu militar neste esporte desde o início dos anos 1980, em Imperatriz; iniciando na arbitragem por meio de um curso promovido pela Liga Imperatrizense de Desportos, atualmente Liga Imperatrizense de Futebol. Sua vocação foi reconhecida de imediato. “Em pouco tempo me tornei participante da Federação Maranhense e, três anos após, integrei o quadro da CBF – Confederação Brasileira de Futebol. E já no final da década, eu fui indicado para ser aspirante à Fifa, representando o Estado do Maranhão, chegando a apitar jogos em vários estados do Brasil”.

O ingresso de Jackson da Silveira se deu intencionalmente, por meio de um curso para formação de árbitros, promovido pela Federação Maranhense de Futebol, em Imperatriz. “Sempre gostei de futebol, e estava sempre presente no estádio. O que me chamava a atenção, naquele tempo, era que sempre tinha muita confusão, briga mesmo, o que impedia até mesmo das partidas terminarem; muita briga mesmo”.

O percurso de Jucelino Miranda Silva, que chegou a ser árbitro da CBF, teve início como dirigente. Ele foi presidente do Tesourinha Futebol Clube, um time amador de Imperatriz. Após alguns incidentes e algumas pequenas confusões, ele acabou abrindo mão da cartolagem e decidiu dedicar-se à arbitragem. “Por muito tempo, eu fui dirigente, e depois que aconteceram algumas coisas não muito agradáveis, eu acabei saindo do amador. Depois senti uma vontade imensa de crescer em uma área relacionada ao esporte. Foi quando decidi ser árbitro de futebol. Na década de 1980, após participar de um curso de arbitragem, passei a integrar o quadro de arbitragem da Federação Maranhense e, logo depois, à CBF, e por mérito pessoal, viu?”.

Jucelino Miranda detém um recorde pessoal, do qual sente muito orgulho: “Trabalhei por 12 anos como árbitro-assistente. Eu fui, e acho que ainda sou, o recordista de permanência no quadro da CBF, entre os árbitros do interior do Maranhão. O mais próximo de mim, permaneceu por 10 anos”. Perguntado sobre o que o motivou a seguir a carreira de árbitro de futebol, ele deixa bem claro que a principal razão é a paixão pelo velho e querido futebol. “Foi bom demais”, diz o árbitro-assistente, também popularmente reconhecido como “bandeirinha”.

De acordo com os entrevistados, somente uma paixão arrebatadora pelo futebol poderia justificar a escolha, uma vez que os riscos são iminentes, além dos desgastes, tanto físicos quanto emocionais, assim como os fatores familiares, profissionais e relacionais, que serão descritos e debatidos nos próximos capítulos. O mais importante, porém, é que sejam consideradas as oportunidades e avanços que se fizeram perceber, a olhos nus, nesses tempos nos quais o futebol tem se desenvolvido e, curiosamente, permanecido quase que intocável.   Conforme diz Marcelino Tavares, “naquela época, todo menino, todo torcedor e todo participante sabiam dizer a escalação da Seleção Brasileira, do goleiro ao ponta esquerda, e tudo decorado. Ao contrário de hoje (2021), que a gente vive uma situação curiosa, ou seja, poucos sabem os nomes de todos os jogadores da Seleção, mas sabem dizer os nomes dos onze juízes do STF – Supremo Tribunal Federal, o que representa uma mudança brusca no comportamento do brasileiro, a meu ver”.

 

“Até hoje a gente continua se formando e se informando”

 

Para a prática de um grande esporte, esperam-se grandes e habilidosos participantes, em todas as áreas que envolvem a atividade. O futebol se torna apaixonante pelas belas jogadas, pelos gols antológicos, as soluções criativas para as estruturas funcionarem devidamente, enfim, grandes espetáculos. Logicamente, os desejos também se estendem aos profissionais que se encarregarão de aplicar as regras, garantindo um resultado justo e passível de análises equilibradas. Tudo isso, é claro, remete a todos: atletas, cartolas, equipes afins e árbitros, uma grande dose de responsabilidade, o que, por sua vez, exige dedicação, estudos e muita, mas muita aplicação mesmo.

“Quando fiz o curso de arbitragem, vi a enorme responsabilidade de uma formação contínua. Fui testado de todas as maneiras possíveis, e de todos os lados, especialmente por parte da Liga que me certificou”, diz Jackson Silveira. As decisões sempre serão imediatas e, dificilmente podem ser desfeitas, mesmo que se identifiquem erros evidentes. Essas questões formam as grandes polêmicas e injustiças históricas, ao longo da prática do futebol, desde as várzeas até grandes torneios, como as Copas do Mundo, promovidas pela Fifa, a cada quatro anos, pelos diferentes continentes.

Por ser um esporte popular e muito rentável, o futebol é constantemente promovido pelos mais diferentes meios de comunicação. Todas as classes sociais são alcançadas e, de certa forma, acaba promovendo uma integração social, pois ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, por um momento, são ligados, unidos, em sua esmagadora maioria, por esta paixão. Porém, o árbitro, pela natureza da função, acaba desagradando a muitos. É comum se ouvir que o melhor juiz de futebol é aquele que não aparece durante o jogo. Ou seja, apesar de almejar o sucesso, o melhor árbitro é aquele que permanece invisível durante os 90 minutos de duração de uma partida de futebol. Curiosamente, o que na verdade acontece é que o profissional da arbitragem se dedica em sua formação, mas que o seu melhor desempenho é quando passa despercebido. Coisas do futebol e ironias da arbitragem futebolística. Em face de tudo isso, supõe-se que para seguir nessa direção é preciso ter muita convicção, coragem e determinação.

Tudo na vida, obviamente, tem um preço. No entanto, algumas escolhas parecem mais difíceis; é a lei da vida, como um todo. Algumas profissões, por exemplo, se mostram mais leves, apesar da dignidade presente em todo trabalho honesto e praticado com dedicação. Outras, como a arbitragem, precisam de muito esforço e coragem. Em cada partida de futebol se apresenta uma circunstância completamente diferente. De repente, tudo pode desabar e aquilo que se apresentava como seguro pode igualmente ruir diante de uma falha, de um erro, o que é tão humano e tão comum, mas que no futebol parece imperdoável.

Os profissionais da arbitragem se esforçam, como qualquer trabalhador digno e correto. O que não lhes falta é dedicação, esforço e disposição para acertar, mas nem sempre é garantia de sucesso. É muito mais comum do que se imagina avistar árbitros tendo que sair dos estádios sendo escoltados pela polícia ou mesmo dentro de camburões. E comumente tendo que esperar, por horas, a saída dos torcedores, até que tenham segurança para retornarem às suas atividades regulares. A propósito, são raríssimos os casos de árbitros que vivam unicamente do exercício da profissão. A quase totalidade deles tem que exercer outras profissões que lhes garantam o sustento, bem como de suas famílias.

A formação de um árbitro é um processo desafiador e constante, e todos dizem a mesma coisa. “Fiz um curso promovido pela Federação Maranhense, aqui em Imperatriz, no auditório do Sindicato dos Arrumadores. Veio um instrutor de São Luís, capital do Maranhão. Foi quando despertei para a realidade de que tinha muito a estudar e me dedicar bastante, o tempo todo, se eu quisesse obter bons resultados e vencer na modalidade”,  afirma o árbitro Jackson da Silveira

 

“Eu estava passando em frente à Federação Pernambucana de Futebol, e resolvi me aproximar, quase que por acaso. Quando o vigia me avistou, perguntou se eu estava querendo me inscrever para o curso de arbitragem; eu nem sabia do que se tratava. Bom, já que eu estava ali, resolvi me informar. Resultado: fiz minha inscrição. Mal sabia que ali começava uma das grandes aventuras de minha vida”, suspira Marcelino Tavares, árbitro aspirante à Fifa.

Como toda escolha, há um preço a ser considerado e assumido por aqueles que optaram por seguir em determinada direção, a exemplo de Jackson da Silveira: “Abracei esse desafio, e estava certo do que me custaria: “Era uma formação contínua, constante e que duraria pelo menos 25 anos, e até hoje a gente continua se formando e se informando”. A voz embargada, como que denunciando um misto de alegria e saudade, Jackson parece ter muito orgulho de ter chegado no estágio que alcançou, apesar de todos os perrengues.

Falas como a de Jucelino Miranda que sentencia: “É muito importante se fazer com total convicção e coragem aquilo que se acredita, sem dar chances para remorsos tardios, por se estar fazendo o que é certo. A vida é muito curta para se investir em questões duvidosas”. Abraçar desafios podem não parecer, no momento, o mais seguro, mas precisamente é o que pode se esperar de quem acredita em si mesmo, investindo pesado nos sonhos e ideais em que se acredita, de fato.

 

“Sendo direito, mas sem direitos garantidos”

 

Na partida de futebol entre as equipes do Sport Clube São Paulo e Guarani, pela Série A2 do Campeonato Gaúcho, ocorreu um fato inusitado: o jogador William Ribeiro (SC São Paulo) agrediu o árbitro Rodrigo Crivellato com um chute na cabeça, que o levou a desmaiar. Foram tomadas as providências, de acordo com as normas disciplinares da Federação e do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação do Rio Grande do Sul.

O caso descrito acima ilustra uma preocupação muito comum no meio da arbitragem: a segurança dos árbitros, o que é um direito inegável, mas que revela uma temeridade: os direitos trabalhistas e previdenciários que deveriam, a exemplo de todos os trabalhadores, ser garantidos também aos árbitros de futebol. Porém, como é público e notório, a arbitragem não é uma profissão regulamentada e, como tal, não confere direitos aos seus praticantes.

Apesar das exigências impostas ao desempenho de suas funções, os juízes não têm quaisquer direitos legais, a exemplo de outros profissionais. Qual seria a razão de tal procedimento? A quem interessaria não regulamentar um trabalho tão essencial à prática do esporte mais popular e rentável de todos os tempos? É sabido que quando o árbitro comete algum erro grave, ele é punido com o afastamento de suas funções (ação conhecida como “geladeira”). É quando esse profissional fica um tempo em “stand by”, ou seja, ele não será escalado e também não receberá o seu pagamento por um tempo determinado, e sem quaisquer garantias de que será chamado de volta. 

 “Por razões técnicas da CBF, na época (anos 1990), o juiz trabalhava até os 45 anos, e não tinha nenhum vínculo empregatício ou quaisquer direitos previdenciários. O que se mostrava um alto risco, pois na hipótese de um acidente ou um problema grave, como marcar um pênalti indevidamente, por exemplo, ou outro erro grosseiro, você pega ‘uma geladeira’, às vezes por tempo indeterminado, e sem direito à remuneração, ou ainda uma contusão etc. O juiz estará sem nenhuma cobertura, não importando o tempo de trabalho, o que significava um problema muito grave, em face da não regulamentação da profissão. Aí eu me perguntava: e quando eu completar os 45 anos, vou viver do quê? Se eu deixar a engenharia, como vou me virar, ao não poder mais apitar futebol?”, comenta Marcelino Tavares.

Apesar da importância fundamental da pessoa do árbitro para a realização da prática do futebol, parece que a profissionalização ainda está muito longe de acontecer, o que causa bastante espanto quando se reflete sobre as altíssimas cifras que o futebol moderno movimenta em seus contratos e acordos celebrados regularmente. Como não atinar para a necessidade urgente de se garantir o mínimo de segurança aos árbitros, especialmente aos menos famosos e pouco escalados para arbitrar? O debate precisa ser posto a respeito da pessoa do árbitro, e o poder público precisa se pronunciar sobre o tema, de maneira urgente.

Ao que parece, a culpa não se restringe apenas à CBF e/ou federações estaduais e regionais, segundo Jackson da Silveira: “Isso aqui é um assunto polêmico. Eu tenho 25 anos que parei de apitar, e são 25 anos em que se discute a profissionalização, mas a temática é uma necessidade sobre a qual não se chega a uma conclusão porque a classe não tem interesse”. Segundo Jackson, portanto, o que deveria ser uma luta da classe não interessa à categoria. No mínimo, soa um tanto estranho esse comportamento.

Existe uma lei, a de nº 12.867, de 10/10/2013, que regulamenta a profissão de árbitro de futebol, inclusive facultando o direito de se organizarem em sindicatos. No entanto, a Lei ainda não tem sido devidamente colocada em prática, o que denuncia uma velha máxima brasileira, a de que algumas leis “pegam” e outras não. Enquanto isso, as federações estaduais e a própria CBF vão conduzindo de acordo com os seus interesses. A situação revela uma preocupação necessária, quando os árbitros são escalados de acordo com as regras de cada instituição, inclusive quanto à remuneração e às escalações, e assim por diante.

Há que se buscar uma forma decente, justa e urgente que proporcione uma prática saudável da lei. De acordo com Jackson Silveira, é uma questão de conscientização da parte da classe. Ele diz também: “A profissionalização do árbitro não pode ser pela internet, nem pela liga de Federação e nem de Confederação, no caso da CBF; ela tem que ser pelo interesse da classe, de um modo geral. Então, ela quer a profissionalização, a Federação e a Confederação não têm nenhum interesse sobre arbitragem. Logo, enquanto não ficar independente das federações, das ligas e da CBF, eu acho que ela vai se arrastar e não vai profissionalizar; vai passar mais uma eternidade”.

Jucelino Miranda emite seu posicionamento, dizendo: “A respeito da regulamentação da profissão de árbitro de futebol, que até hoje no meio de tantos avanços na área trabalhista, ainda não é uma profissão regulamentada. Havia uma questão no Congresso Nacional visando regulamentar a profissão, mas até hoje, e parece que nunca se revolverá, não há uma posição sobre esse problema. Por exemplo, quando você se machuca, numa partida de futebol, você fica sem receber e sua família, como é que fica? Fica desamparada, sem qualquer direito. Isso não é nada bom”.

Os árbitros brasileiros, especialmente aqueles que atuam nas federações menos estruturadas, precisam encontrar uma forma de lutar por seus direitos, pressionando a quem de direito, no sentido de fazerem valer a lei. Não se pode tolerar descasos tão expostos no que diz respeito ao cumprimento da lei. É, sim, uma questão de justiça e também de bom senso fazer valer o reconhecimento de uma categoria, seja ela qual for, cumprindo com o seu dever. Afinal, tudo deve convergir no sentido de atribuir, a justa remuneração e a prática de direitos fundamentais dos profissionais que cumprem suas obrigações. 

 

“Aonde e qual é o grande jogo que você vai apitar no Maranhão? Só Moto e Sampaio”

 

O futebol brasileiro tenta se estruturar. Muita coisa já mudou, mas ainda há muito a melhorar; e isso todos reconhecem. Quando se trata de Maranhão, então, as coisas se tornam ainda mais difíceis. As estruturas precisam se firmar, e algumas ainda estão por ser elaboradas. O time maranhense mais bem posicionado é o Sampaio Corrêa que, atualmente (2021) disputa a Série B do brasileirão; os demais, as Séries C e D. Pelo nível do futebol maranhense, a arbitragem também sofre com o preconceito e o descaso em meio ao cenário nacional. Jackson Silveira diz: “O futebol do Brasil tem série A, Série B, Série C e Série D. No meu tempo era somente Séries A e B, mas pouca coisa mudou no Maranhão, pois a arbitragem em nosso estado não é vista nacionalmente, infelizmente”. Em se tratando de interior, como Imperatriz, por exemplo, a situação fica ainda mais difícil. O único time profissional da cidade, o Sociedade Imperatriz de Desportos – SID, atualmente está na Série D.

É claro que a atual situação traz reflexos à arbitragem, pois uma coisa acaba implicando na outra, inevitavelmente. Reclama-se de uma falta de atenção da capital em relação ao futebol do interior e, é claro, o mesmo acontece com a arbitragem. Árbitros, como Jackson Silveira, Jucelino Miranda e Marcelino Tavares (este último pertencia à Federação Pernambucana, mas chegou a apitar jogos do Campeonato Maranhense, nos idos de 2002), em nada ficaram devendo à arbitragem nacional. Mas é preciso se reconhecer que o atual momento não favorece a arbitragem, apesar do bom nível dos árbitros maranhenses.

A regra é a seguinte: para um árbitro de Imperatriz apitar jogos nacionais, ele precisaria, antes, comandar os grandes clássicos maranhenses. “Aonde e qual é o grande jogo que você vai apitar no Maranhão? Só Moto e Sampaio”, diz Jackson Silveira. O que se pode concluir, em meio a tal contexto, é que o reconhecimento da arbitragem, no Maranhão, passa obrigatoriamente pelo bom desempenho do futebol maranhense.

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