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Nossos árbitros, assistentes e dirigentes de arbitragem estão longe de serem bons”
 

“Nossos árbitros, assistentes e dirigentes de arbitragem estão longe de serem bons”

 

Por razões peculiares, o futebol é apaixonante e ao mesmo tempo polêmico. Com a mesma força que provoca demonstrações de amor e paixão, também incita reações destemperadas e, infelizmente, às vezes violentas. E uma boa parte dessas atitudes mais rudes têm sido dirigidas aos árbitros e aos seus assistentes.

Mas a arbitragem brasileira tem sido alvo de críticas pesadas, duras e, em alguns casos, injustas. Nem mesmo a utilização do VAR e todas as mudanças nas regras aliviaram a vida dos juízes de futebol no Brasil. Nas palavras do jornalista Rodolfo Rodrigues, autor de mais de dez livros sobre o esporte e um apaixonado por números e estatísticas, “é nítido que nossos árbitros, assistentes e dirigentes de arbitragem estão longe de serem bons. São fracos, despreparados e erram para todos os lados”. Rodolfo sustenta sua opinião apontando as reclamações de técnicos, atletas e dirigentes insistentes e inconsistentes.

Há reclamação de toda parte, desde os jogadores, passando pelos treinadores, dirigentes, patrocinadores e até os torcedores. Muitos apontam, denunciam, mas não assumem suas responsabilidades e nem perecem dispostos a colaborar para melhorar a situação. Aos árbitros cabe a maior das pechas, uma vez que as suas decisões é que acabam prevalecendo, independente dos juízos emitidos.

Porém, reclamar somente não resolve.  De nada valerão tantos simpósios, congressos e seminários das entidades gerenciadoras do futebol se posições não forem definidas e assumidas, de fato e de direito. Um esporte tão encantador e caro, como o futebol, precisa de medidas objetivas, claras, eficientes e urgentes. Isto tem sido exposto, por exemplo, na Copa do Catar 2022. Muitas questões foram levantadas e algumas possíveis soluções apresentadas resultam pouco eficientes, como por exemplo, o tempo de acréscimo às partidas. Não basta aumentá-lo, se a “cera” não for combatida em sua origem. O árbitro e seus assistentes precisam colocar em prática a regra do jogo, exigindo que os atletas respeitem o que está acordado, como o atraso na reposição de laterais, nas cobranças de faltas e do tiro de meta, entre outras questões.

Quando se insiste apenas na reposição do tempo perdido, a partida se prolonga por demais, tornando-se cansativa para os atletas,  árbitros e, lógico para os torcedores. E isso sem falar na grade de programação das rádios, televisões e plataformas que transmitem o evento esportivo. Noutras palavras, não existem soluções fáceis, mas alguma coisa precisa ser feita, e com urgência.

Um exemplo do exagero na reposição do tempo foi a partida de abertura da Copa do Catar, envolvendo as seleções anfitriã e a do Equador. O árbitro brasileiro escalado para o jogo, Raphael Claus, deu 14 minutos de acréscimo somente no primeiro tempo do jogo. No segundo, concedeu mais dez. Ou seja, somando os totais, quase foi o período de uma prorrogação – que é de 30 minutos. Aliás, a edição de 2022 foi considerada a Copa dos acréscimos, na opinião de comentaristas e espectadores.

A recomendação dos acréscimos partiu do presidente da Comissão de Arbitragem da Fifa, o ex-árbitro italiano Pierluigi Collina. Pode-se até não discutir a intenção, mas a medida não agradou muita gente. Resta a expectativa de como as federações, mundo afora, vão reagir em seus campeonatos, se seguirão ou não a alteração. Normalmente, os eventos dessa magnitude costumam ditar normas. Agora é esperar.

 

“Se vai dar certo, eu não sei, mas alguma coisa precisava ser feita”

 

Com o avanço das tecnologias, tudo parecia, enfim, caminhar para uma  unanimidade, algo não tão comum no mundo do futebol. Ledo engano. O que parecia resolver, a curto prazo, tem sido objeto de novas polêmicas. O VAR, apesar de já estar sendo assimilado, ainda tem causado muitos desconfortos e discussões.

Marcelino Tavares, ex-árbitro da Federação Pernambucana de Futebol e da CBF, defende o uso da tecnologia, mas não descarta o necessário cuidado com a sua aplicação, o que deve ser feito, segundo ele, com muito treinamento e atenção. “Se vai dar certo, eu não sei, mas alguma coisa precisava ser feita.  Talvez esteja faltando um pouco mais de treinamento, especialmente da parte dos operadores. Quem sabe mais agilidade por parte de quem julga o impedimento. Rapaz, é uma demora e tanto!” O que se comenta, no meio especializado, é que o modelo de software utilizado no VAR brasileiro depende dos marcadores de linha, que operam manualmente. O mesmo recurso, na Fifa, é diferente, sendo o programa semiautomático, gerando mais rapidez na resposta ao árbitro de campo, agilizando o andamento da partida.

imagem de internet

Para conseguir cumprir seu objetivo, o árbitro de futebol também precisa dominar alguns aspectos pessoais, como os requisitos de natureza física, técnica, mental e social. Qualquer deficiência em alguma dessas áreas causará prejuízo ao espetáculo. O árbitro deve ter consciência de que há decisões a serem tomadas num curtíssimo espaço de tempo. Também precisa considerar que um bom número das infrações cometidas em campo pode representar uma questão de interpretação, de sua inteira responsabilidade. No futebol, diferente de outros esportes nos quais as regras são definidas previamente, pode acontecer do juiz ser capaz de observar o contexto, a situação ou ainda a intenção do atleta supostamente infrator.

 

“O árbitro precisa estar 100% dentro do jogo. Caso contrário, ele poderá se complicar. É preciso concentração”

 

A quem muito se entrega, muito é exigido. A máxima pode ser aplicada ao juiz de futebol. De sua competência, atenção, conhecimento e capacidade de raciocínio dependerá, em grande parte, o sucesso de uma partida, ou até mesmo de um campeonato inteiro. Arbitrar um jogo vai exigir muita atenção. “O árbitro precisa estar 100% dentro do jogo. Caso contrário, ele poderá se complicar. Isso, no entanto, é muito, mas muito difícil”. O comentário de Aurélio Folha traduz muito bem essa realidade. Segundo ele, o juiz deve “esquecer de tudo”, durante a partida que dirige, e se concentrar na possibilidade de realizar um grande trabalho.

Arbitrar uma partida de futebol vai muito mais além do que somente aplicar as regras, interpretando-as de acordo com os manuais. Existem muitas dificuldades, desde o estado emocional dos envolvidos, a infraestrutura oferecida, as pressões recebidas (de todos os lados), além das questões administrativas relacionadas ao desempenho do trabalho em si. A súmula do jogo concentra as respostas às críticas ou às violências recebidas, sejam verbais ou físicas. Não importa quais times estejam jogando ou o local da partida, a pressão é sempre igual. Numa cidade do interior da Paraíba, Aurélio Folha, que havia levado a sua esposa para o estádio onde apitaria um clássico local, teve que sair (com sua mulher) dentro de um camburão da Polícia Militar, para evitar o pior. 

O peso emocional lançado sobre um árbitro de futebol é desafiador. É uma exposição violenta a uma carga de estresse quase insuportável. E a isso se junta a tensão de uma carreira que não garante aposentadoria remunerada e nem direitos previdenciários. Dependendo das ocorrências, pode até mesmo lhe custar uma “geladeira”, ou seja, uma boa suspensão, e sem direito a remuneração. O tempo de carreira de um árbitro é curto, até o máximo de 45 anos de idade. Porém, é sabido que pela oferta intensa de novos profissionais, esse limite tem diminuído bastante nos últimos tempos. É a tal da cultura do cancelamento, muito em voga na atualidade.

 

“À medida em que o tempo passa, e as evoluções vão acontecendo, as exigências vão aumentando. É o preço a ser pago!”

 

Nos cursos de formação e de capacitação, em sua maioria  oferecidos pelas federações estaduais, regionais e pela própria CBF, os candidatos a juízes buscam o aprimoramento na função. Em suas grades, as escolas oferecem disciplinas relacionadas à prática de esportes em geral e, em especial, o futebol, com a maior concentração de horas-aulas.

São tratados temas como a área do campo de futebol e todas as suas marcações e funcionalidades. Além das propriedades da bola utilizada no esporte, desde o seu peso, circunferência e materiais utilizados em sua fabricação. O papel do árbitro e dos seus assistentes e como cada um desempenha a sua função. Elementos da partida também fazem parte do aprendizado: o tempo do jogo, o início e o reinício, saída de bola, bola ao chão, o tamanho das traves, chamadas de balizas, e o grande momento do futebol: o gol.

Durante o curso, busca-se também aprender a regra do impedimento que, apesar de parecer simples, geralmente é a que mais causa polêmica. Neste caso específico, na maioria das vezes, a responsabilidade compete aos assistentes que, com a chegada do VAR, se tornou compartilhada. Trata-se, ainda, sobre as faltas e suas correspondentes punições que, dependendo da gravidade, podem ser a simples marcações ou punidas com cartões amarelo ou vermelho, quando o jogador é expulso de campo. Se a falta ocorrer dentro da grande área do adversário, ocorre a maior de todas as infrações, o tiro penal, mais conhecido como pênalti. Aprendem também sobre as saídas de bolas, tanto nas laterais do campo quanto nas linhas-de-fundo e as maneiras de reiniciar a partida, seja em tiro-de-meta ou escanteio.

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O posicionamento do árbitro central e de seus assistentes durante a partida, bem como suas locomoções ao longo do jogo são outros conteúdos importantes. Quanto melhor o profissional se posicionar, maior a possibilidade de acerto na jogada e até mesmo influencia na aceitação da marcação, por parte dos jogadores.

Com as mudanças recentes, os cursos tiveram que se adaptar, conforme compartilha o ex-árbitro maranhense Jackson Silveira: “À medida em que o tempo passa, e as evoluções vão acontecendo, as exigências vão aumentando. É o preço a ser pago! Os profissionais precisam viver isso; é o jeito”. O ex-juiz fala de cátedra, pois ainda tem recebido convite de canais de televisão para comentar as arbitragens, e por causa disso tem que se manter atualizado.

Não se pode esquecer, nem mesmo, das questões referentes à expressão oral e escrita. Cabe ao árbitro escrever a súmula do jogo, um tipo de relatório, detalhando as principais ocorrências da partida, a ser entregue à sua federação, logo após o término. Na formação, o árbitro aprende acerca das leis que regem o desporto no Brasil, tem noções de primeiros socorros, de nutrição esportiva e de fisioterapia, a partir de palestras ministradas durante o período da formação.

 

“Tudo é uma questão de ajuste. Eu torço para que melhore, mas ainda está muito longe do ideal”

 

O VAR é mais um elemento que veio gerar discussão. É comum se avistar com uma certa frequência os próprios jogadores cerceando o árbitro, inclusive alguns deles fazendo o gesto característico do recurso de vídeo, traçando no ar, com os dedos indicadores em riste, imitando o formato de uma tela. Eles esquecem de que existe um protocolo, que limita as razões pelas quais o VAR deve ser acionado. A decisão de revisar a jogada parte do juiz que opera o VAR, solicitando a revisão por parte do árbitro do jogo, a quem compete a decisão final. Ao contrário do que acontece numa partida de tênis ou de voleibol, por exemplo, nas quais cabe ao técnico ou aos atletas, o pedido de revisão, toda a ação do VAR está concentrada na arbitragem, e não há limites para o número de revisões durante a partida.

Alguns especialistas têm sugerido algo parecido com o que acontece no tênis ou no vôlei: que parta dos atletas ou dos técnicos o pedido de revisão. E que seja limitado o número de revisões, a fim de que não se prolongue o tempo da partida. Para Jucelino Miranda, “tudo é uma questão de ajuste. Eu torço para que melhore, mas ainda está muito longe do ideal”. As cobranças vão continuar e os desafios podem até serem vencidos, mas outros surgirão. É o que pensa o ex-assistente aspirante à FIFA e imperatrizense.

A CBF tem se esforçado, de acordo com os noticiários esportivos, para qualificar o seu quadro de arbitragem. Sendo uma das pioneiras na implantação do VAR, cometeu uma falha grosseira, conforme aponta Wilson Seneme, presidente da Comissão de Arbitragem da instituição: “Quando cheguei aqui não havia uma pessoa técnica de VAR. Existia uma figura administrativa para o VAR, que nunca palestrou, que nunca deu uma palestra técnica de arbitragem. Agora a gente define um gerente técnico de VAR, que vai estar dia a dia desenvolvendo um trabalho técnico do VAR”. Querendo mostrar novidade, a comissão terminou por atropelar a ordem das coisas, o que pode explicar, mas não justificar, as confusões e polêmicas em torno da novidade da implantação do recurso de vídeo.

 

“Quando as mulheres querem fazer algo, elas sempre fazem muito bem feito – é uma bela característica feminina”.


A arbitragem feminina tem sido mais aceita, o que se representa mais uma conquista das mulheres. Como diz Marcelino Tavares, “o apito não tem gênero. O que vale mesmo é a competência e a dedicação profissional e o comprometimento com o espetáculo”. Os futebolistas brasileiros já se acostumaram com a presença feminina tanto na prática do futebol quanto na arbitragem. As mulheres que apitam os jogos têm feito um belo trabalho e, diga-se de passagem, todos podem errar, independentemente do gênero. O que realmente importa é a responsabilidade profissional, a imparcialidade e a aplicação no cumprimento das regras do futebol. Jackson da Silveira acredita na arbitragem feminina, quando diz: “Geralmente quando as mulheres querem fazer algo, elas sempre fazem muito bem feito – é uma bela característica feminina”.

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Jucelino Miranda também reconhece a importância do trabalho das mulheres na arbitragem de futebol. “Eu não vejo por que não acreditar. Pode oferecer, sim, a oportunidade pra elas. Eu vejo tantos marmanjos fazendo as maiores lambanças, por que elas não podem ter uma oportunidade?”. Na verdade, as pressões são demasiadamente pesadas, mas podemos testemunhar o bom desempenho das juízas em campo, e fora dele também. O que realmente importa é a responsabilidade alicerçada no profissionalismo, e isso elas têm exibido fartamente em todas as oportunidades. É lógico que, se alguma delas falhar o tratamento dispensado deve ser o mesmo dado aos homens.

“Conheço muitas mulheres que apitam jogos com muita classe, conhecimento, dedicação e responsabilidade”, comenta Aurélio Folha. “As pessoas precisam entender que o talento, o conhecimento e o trabalho vêm mediante o esforço e a disposição em pagar o preço. E isso não tem a nada a ver com gênero, posição social ou cor da pele”. 

 

“O que vai acontecer, no final, eu não sei, mas que muita coisa tá mudando, ah, isso tá!”

 

 “O que vai acontecer, no final, eu não sei, mas que muita coisa tá mudando, ah, isso tá”, afirma Aurélio Folha. Na verdade, se um astronauta fanático por futebol tivesse feito uma viagem de duas décadas apenas, ao retornar ao planeta-bola, seguramente estranharia muita coisa que, a esta geração já começa a parecer normal. É difícil reconhecer que, originalmente, o futebol possua apenas 17 regras, mas a adaptação forçada ao mundo tecnológico trouxe muitas novidades, desde a modernização nos treinamentos, nos esquemas táticos,  e nos avanços relacionados, inclusive no que diz respeito aos uniformes e demais acessórios, além da evolução e democratização  das transmissões ao vivo.

É lógico que o acompanhamento físico, emocional, técnico e profissional dos árbitros e árbitras de futebol também precisa acompanhar essa evolução. Há uma cobrança generalizada pela profissionalização e aprimoramento de árbitros e assistentes, bem como dos demais componentes do VAR. É esperada uma atuação equilibrada de dirigentes, cartolas e também dos torcedores que, afinal de contas, também fazem parte desse grande negócio que movimenta milhões, gerando empregos diretos e indiretos.

Há muitas questões envolvidas, porém, resiste uma certeza indiscutível: o futebol nunca deixará de ser um esporte apaixonante, embora muitos cartolas resistam em aceitar essa evidência. E não há como negar a necessidade de investimento em quem coloca “ordem na casa”, ou seja, se torna obrigatório investir nos árbitros e árbitras, afinal de contas são eles quem “supervisiona a prática do futebol”. Deve-se permitir que o árbitro central cuide apenas da prática das regras em campo, dissociando-o de tarefas burocráticas. Outra parte interessante é a profissionalização, permitindo ao árbitro preparar-se, física, mental e emocionalmente para as partidas, sabendo como lidar com a sua equipe de auxiliares, inclusive. A Confederação Brasileira de Futebol deve se responsabilizar pelos árbitros, e não apenas puni-los quando erram; a CBF deve assumir essa responsabilidade de pronto.

Arnaldo Cezar Coelho (1982) e Romualdo Arppi Filho (1986) - árbitros brasileiros que apitaram finais de copa do mundo

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Outro ponto a ser considerado é a familiarização do profissional da arbitragem com a tecnologia, oferecendo treinamentos e capacitações regulares com o objetivo de manter a atualização em dia. Oferecer uma remuneração justa, procurando inibir riscos de corrupção, por exemplo. Permitir aos árbitros darem entrevistas, nas quais poderão se posicionar ou “explicar” suas marcações em campo.

No entanto, o maior desafio consiste na independência da comissão de arbitragem, evitando o favorecimento e a influência da politicagem, que é um mal presente não apenas no futebol, é claro. Que se estabeleça, para o bem da arbitragem brasileira e mundial um sistema de meritocracia, onde a competência prevaleça.

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