
Segue o Jogo!
por Paulo Rogério

Capítulo 3: A chegada do VAR
“Errar é humano, mas permanecer no erro é burrice”
Apesar de parecer novidade, o VAR (Vídeo Assistant Referee, sigla em inglês) completou seis anos de aplicação no futebol. Veio com a proposta de eliminar ou diminuir as polêmicas e/ou injustiças que, até então, pareciam não ter solução.
A sua primeira aplicação foi dia 12 de agosto de 2016, numa partida de futebol da Terceira Liga Norte-Americana, envolvendo as equipes do Orlando City e New York Red Bulls II, em Harrison, Estados Unidos da América. Durante o jogo, dois lances foram revisados, inclusive a correção de um pênalti, marcado pelo árbitro, e a consequente expulsão do zagueiro. Logicamente, os jogadores ficaram surpresos com a dinâmica da partida e, a todo momento, esperavam alguma nova informação sobre a ferramenta.

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Curiosidades à parte, o VAR tem trazido muitas reflexões. Isso é normal em toda e qualquer novidade à qual não se está ainda acostumado. Mas as discussões às vezes se tornam mais acaloradas, nos programas esportivos das televisões ou nos canais das redes sociais. Além, é claro, dos bate-papos das mesas de bares e afins, tanto com os profissionais da comunicação quanto com os leigos aficionados pelo esporte.
Com os sucessivos testes, polêmicas e debates infindáveis, o árbitro de vídeo tem se aprimorado. Ao mesmo tempo, surgem novas experiências que elevam os tons das conversas. Tudo isso força o aprimoramento da ferramenta que se propunha, desde que surgiu, a erradicar a injustiça de muitos resultados no futebol.
Situações como a final da Copa do Mundo de 1966. A equipe da casa, a Inglaterra, foi acusada de ser beneficiada pela arbitragem ao ter um gol contra a Alemanha validado sem que a bola tivesse atravessado totalmente a linha da trave. Aquele foi o único título mundial creditado aos ingleses. Até os dias atuais, não apenas os alemães, mas toda a comunidade do futebol reclama do resultado daquele jogo.
A utilização do VAR vem a reboque de uma sucessão de erros comprometedores. Em especial durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, realizada na África do Sul, a primeira e única realizada em solo africano. Os problemas com a arbitragem ocorreram, por exemplo, na partida entre as seleções da França e da Irlanda, quando o jogador Thierry Henry teria dominado a bola com a mão e dado o passe para Gallas marcar o gol de empate, que valeu a classificação dos franceses para a competição. O lance irregular, inclusive, foi admitido pelo próprio atleta, no dia seguinte, em uma entrevista a um jornal.
Conforme o dito popular, “errar é humano, mas permanecer no erro é burrice”. O futebol, com toda a sua fama e poder peculiares, não poderia permanecer isento à força das tecnologias e dos avanços científicos. Seja quanto à ciência médico-esportiva e aos modelos táticos, mas em especial ao que se refere às suas seculares e quase inalteráveis regras. Aliás, muitos atribuem a permanência do sucesso do esporte por todo o mundo, sobrevivendo aos regimes, mudanças climáticas, sociais, geográficas e tantas outras, justamente à imobilidade das normas.
Vários esportes populares, como o voleibol, o tênis e até a poderosa Fórmula 1, já se renderam há tempos aos benefícios dos avanços tecnológicos. Suas federações alegam que, assim, obtêm resultados mais próximos da justiça do mérito e esforços dos competidores. Tudo isso, lógico, parece mais sensato, o que já demonstraria uma boa atitude. Mas é importante não se esquecer de que a própria tecnologia também é um mercado que visa ao lucro, como todos os demais, e não apenas o fato de oferecer conforto e bem-estar aos consumidores.
“Todos sabiam que seriam necessários pelo menos dez anos para que toda a comunidade futebolística se adaptasse ao árbitro de vídeo”
As mudanças nas regras do futebol eram esperadas a décadas. Elas vieram, mas trouxeram novas polêmicas. O árbitro paraibano, Aurélio Oliveira Folha, que atuou entre 1986 a 2004, naquela Federação, acredita que o VAR foi criado para “deixar mais claras e acertadas as decisões dos árbitros”.
Porém, como toda novidade, o árbitro de vídeo deve ainda passar por uma série de ajustes, pois ainda não é uma unanimidade. De acordo com o jornalista esportivo Willian Tales Silva, autor do livro “VAR – A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”, as mudanças vieram mesmo para agitar o futebol. Ele lembra que desde as suas primeiras experiências, todos sabiam que seriam necessários pelo menos dez anos para que toda a comunidade futebolística se adaptasse ao árbitro de vídeo. “É uma mudança muito drástica na dinâmica do futebol. Talvez a modalidade nunca tivesse visto uma mudança tão significativa, tão rápida”, ressalta.

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O VAR funciona com o material gerado por diversos ângulos de câmeras espalhadas pelo campo de futebol. O sinal produzido é enviado para uma sala onde vários monitores são acompanhados por quatro pessoas: o operador do equipamento, o assistente VAR, o supervisor de impedimento e o árbitro VAR. São eles os responsáveis pelas análises das imagens e poderão ser acionados pelo juiz da partida, sempre que solicitados. Também podem, em algumas situações, chamar a atenção do árbitro, de acordo com as regras estabelecidas. E é justamente nesse quesito que a maioria das questões e polêmicas tem sido levantadas. Ao consultar o árbitro de vídeo, ou sendo acionado por ele, o juiz da partida pode se dirigir a um monitor localizado ao lado do campo, onde confere as imagens e se comunica com a equipe da sala de vídeo. Porém, a palavra final sobre o lance será sempre do representante de campo, que é a autoridade máxima.
Muitos comentaristas de futebol reclamam das repetidas interferências do VAR. Alguns chegam a insinuar, ao vivo, que certos árbitros, temendo determinadas decisões, acabam utilizando a ferramenta como uma bengala, deixando para chegar a um veredito somente após a checagem. É claro que a maior responsabilidade se dá quando uma das equipes marca um gol que, dependendo das circunstâncias, sempre será checado. Ou seja, a equipe verificará se houve impedimento ou outro tipo de situação que poderia invalidar o lance e anulá-lo, por exemplo.
Também entram no quesito de visão os pênaltis – se foram corretamente marcados ou se realmente existiram –, o posicionamento do goleiro ou invasão da área. O VAR pode ser acionado, ainda, quando acontecer alguma falta que mereceria, de acordo com as regras, a expulsão do infrator e, mesmo a correção de uma expulsão injusta. Outra situação permitida é quando, por causa de tumultos ou desatenção do árbitro de campo, algum jogador é punido com cartão amarelo ou vermelho em lugar de outro.
“No Brasil difere muito da Europa, e isso acaba enervando o torcedor e as equipes envolvidas”
Os problemas se complicam ainda mais com os seguidos pedidos de jogadores, técnicos e dirigentes. Muitos se acham no direito de apelar para a revisão do VAR em quaisquer lances de seus interesses. E tudo isso sem citar os gritos e uivos dos torcedores contra ou a favor das marcações. Estes são apenas alguns dos muitos ingredientes que foram, mais recentemente adicionados, a este mundo sempre em movimento do “planeta bola”.
Na verdade, a maior parte das reclamações não é contra a existência do VAR, em si, mas ao seu correto funcionamento. Este, sim, precisa ser aprimorado, na opinião dos especialistas. Por exemplo, a demora em traçar a linha de impedimento ou a confirmação ou não de um gol. Portanto, o problema não é a ferramenta, mas o seu uso. “Ainda há uma enorme deficiência nas decisões do VAR. A demora, por exemplo, no Brasil difere muito da Europa, e isso acaba enervando o torcedor e as equipes envolvidas”, lembra o árbitro Aurélio Folha, se referindo a este ponto.
Com relação à postura dos narradores de futebol, outras mudanças ficam evidentes. “Você tem ideia do que significa você ficar com o grito de gol – algo tão característico dos narradores – preso na garganta? Mesmo se confirmado gol, a vibração nunca será a mesma”, diz Marcelino Tavares. Inclusive, conforme observa Jucelino Miranda, “mesmo a própria torcida pode-se notar o constrangimento causado pela espera da confirmação do gol. É terrível!” De fato, o VAR trouxe novas configurações ao futebol, e isso não dá pra negar. No entanto, boa parte das polêmicas poderiam ser resolvida pelo próprio juiz de campo, como argumenta Aurélio Folha: “Olha, o Raphael Clauss, paulista e árbitro da CBF desde 2015, em um determinado jogo, teve de tomar uma decisão muito difícil e corajosa ao mesmo tempo. Então o comentarista disse: ‘o nome apita o jogo’. Em outras palavras, quem tem experiência no apito nem sempre vai ouvir o VAR por qualquer razão. Muitas vezes é melhor ser prudente para não cometer erros que poderiam prejudicar uma equipe, transformando resultados finais”.

Raphael Clauss, paulista e árbitro da CBF desde 2015
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Mesmo com tantas discussões acaloradas, a proposta do árbitro de vídeo é, sim, muito interessante e tem trazido muitas respostas positivas. Isso deve ser reconhecido, inclusive com os devidos créditos, aos visionários que o projetaram. O que está faltando, e isso é bastante notório, são ajustes, e estes virão com a experiência. Tudo ainda é muito recente, pois o VAR tem apenas seis anos de utilização no total, desde o seu aparecimento. No Brasil, a CBF começou a utilizá-lo em competições oficiais somente em 2018, durante a Copa do Brasil. Como atestam as palavras de Leonardo Gaciba, presidente da comissão de arbitragem da CBF: “Hoje em dia não é mais projeto. É realidade. Os clubes não querem mais jogar sem ele. O pessoal vê a necessidade” No campeonato nacional, o Brasileirão, a utilização começou em 2019.
As dinâmicas trazidas pelo VAR são assustadoras, mas representam, sim, um antigo anseio de dirigentes e atletas. Até então, raríssimas mudanças ocorreram no mundo do futebol. E quando surgem, são quase que imperceptíveis. Nenhuma foi tão avançada quanto a do árbitro de vídeo. Essa talvez seja a maior causadora de tantos debates e resistências, mas está mais do que provada a necessidade de atitude nesse quesito. “Uma das grandes características do futebol é exatamente a permanência de suas regras. Por que o futebol é tão difundido e tão tradicional? É exatamente porque as suas regras quase nunca mudam”, analisa o árbitro Marcelino Tavares, atualmente aposentado e residindo em Imperatriz.
Quem decide ou legisla sobre as regras do futebol no mundo inteiro é a International Football Association Board, um instituto composto pelas cinco confederações: UEFA (Union of European Football Associations, sigla em inglês), CONCACAF (Confederação da América do Norte, América Central e Caribe de Futebol, sigla em inglês), CONMEBOL (A Confederação Sul-Americana de Futebol (Confederación Sudamericana de Fútbol, sigla em espanhol) e Oceania, além de três delegados da FIFA, que têm mais países filiados do que a própria ONU. Tudo isso demonstra que o poder desse esporte, dentro e fora de campo, é imenso. Todo esse pessoal se reúne uma vez por ano em Genebra, Suíça, para debater as possíveis alterações das regras. “Depois de uma semana de debates e questionamentos, algumas medidas são tomadas. Por exemplo, o tamanho da bola que deixará de ter 69 centímetros, e passará a ter 71. Certamente, esse conservadorismo é muito responsável pela manutenção do futebol como o esporte mais popular do mundo inteiro. Noutras palavras, as mudanças, no geral, não alteram a essência do esporte em si”, dispara Marcelino Tavares.
“Antes, ser chamado pelo VAR era um atestado de erro em campo. Hoje em dia é uma coisa muito normal”
Além de ser uma das maiores mudanças ocorridas nas regras do futebol em toda a história, o VAR carrega consigo uma série de outras situações que precisam ser implementadas. Daí também a necessidade de se repassar com clareza e paciência tais mudanças para todas as confederações que, por si, devem ser cuidadosas na retransmissão para as federações. Quando aconteceu, por exemplo, a mudança da regra no recuo de bola para o goleiro, ocorreram cenas dignas de filmes do gênero pastelão. Goleiros e zagueiros costumavam se atrapalhar por não terem sido devidamente informados sobre a regra.
Quanto a essa dinâmica, Jackson Silveira, árbitro maranhense aposentado, destacou que o futebol é uma das modalidades esportivas que menos tem mudado no mundo. “Passaram-se mais de 100 anos sem mudar. E quando mudava, era pouca coisa. Agora, nos últimos cinco, seis anos mudaram muitas coisas, e de forma absurda, que tem muita gente, até hoje, que tá confundindo”. Na opinião de Jackson, alterações nas regras são necessárias, mas com a devida e ampla divulgação. "A Fifa muda, coloca no seu livrinho, mas não distribui para as confederações que, por sua vez, não sabem informar as federações. Tá errado! De repente aparece no livro de regras e o juiz tem de aplicar, mas não aconteceu sequer uma palestra para informar sobre a questão. Assim fica difícil!”, comenta.
O árbitro de vídeo vai se mostrando cada vez mais aceito e necessário. Mas ainda são percebidos alguns obstáculos. Por exemplo, a excessiva dependência, por parte de alguns árbitros, pela interferência do VAR. A regra é muito clara no que diz respeito ao papel do árbitro de vídeo durante a partida de futebol. Outro fator a ser superado é o receio do juiz em consultar a ferramenta. Para alguns, pode soar como insegurança. Para o árbitro Anderson Daronco, esta questão já foi superada. “Antes, ser chamado pelo VAR era um atestado de erro no campo. Hoje em dia é uma coisa muito normal. O árbitro de campo é a grande evolução. Ele aprendeu a apitar com a ferramenta, começou a decidir mais e acertar mais”, destaca.
No tradicional futebol, existem determinadas regras que são classificadas como interpretativas. Ou seja, dependem de como o árbitro de campo entendeu, viu ou julgou o lance. Em tais questões não é permitido, em nenhuma hipótese, a intervenção do VAR. O difícil mesmo é fazer o torcedor entender isso, e até mesmo alguns jornalistas e comentaristas. De fato, como dizem, “futebol não é para amadores”. As polêmicas, recheadas de confusões e muitas discussões sempre farão parte desse esporte. Talvez seja essa uma das explicações para o enorme fascínio exercido sobre as massas.

Anderson Daronco, gaúcho e árbitro da CBF
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Curiosamente, o VAR tem a missão de tirar toda e qualquer dúvida dos lances de uma partida de futebol. Mas os questionamentos parecem ter se multiplicado. Alguns especialistas atribuem as polêmicas mais à maneira como foi implementado do que a ferramenta tecnológica em si. A consolidação do sistema ocorreu em meio à pandemia do novo coronavírus, momento delicado, sanitária, política e socialmente falando, que alcançou o mundo inteiro trazendo mudanças nas rotinas humanas, inclusive nos esportes. O protocolo da CBF, visando frear a contaminação, recomendava o cerramento dos portões dos estádios aos torcedores e a exigência de máscaras e testes dos atletas e profissionais envolvidos. Apesar de toda a tensão, provocada pela pandemia, ainda assim os questionamentos não diminuíram em relação ao árbitro de vídeo.
E não é que o VAR sobreviveu? E ainda mais, evoluiu. No entanto, as polêmicas, ao que tudo indica, também seguirão no mesmo ritmo. Mas o que realmente importa é que o árbitro de vídeo veio revolucionar o futebol, e isso é fato. O que se discute realmente não é necessariamente a existência do VAR, mas as intervenções. Deve se evitar, então, as medidas extremas representadas pelos árbitros que esperam a indicação do árbitro de vídeo. Ou aqueles que resolvem por conta própria não aceitando as opiniões dos operadores da ferramenta.
“Está na hora de chegarmos à era do desafio. Ele tira a responsabilidade do árbitro e compartilha a importância do VAR com o clube”
Com o futebol, a exemplo dos demais esportes, as expectativas são as mais variadas. Apesar do seu espectro conservador, ainda será possível, a julgar pelas pesquisas e projeções, que surjam novidades. A tecnologia fascina e desafia as gerações a não somente projetarem, mas tornar possível todas as inovações. Apesar das resistências, posicionamentos contrários e incessantes discussões, os projetos vão aparecendo e, pouco a pouco, vão superando os obstáculos e demonstrando, na prática, a máxima de que aquilo que é bom de verdade acaba prevalecendo.
Ideias como a dos desafios, prática comum no vôlei, por exemplo, pode aparecer no futebol, com a utilização do VAR. É a opinião de Leonardo Gaciba, ao entender que o árbitro de vídeo deve ser mais explorado, visando privilegiar os técnicos e dirigentes do futebol: “Está na hora de chegarmos à era do desafio. Ele tira a responsabilidade do árbitro e compartilha a importância do VAR com o clube”, afirma o presidente da comissão de arbitragem da CBF. Na prática, isso significa o seguinte: quando o técnico se sentir prejudicado, poderia pedir a revisão de determinada jogada e, é claro, dentro de certos critérios a serem estabelecidos previamente.

Sala do Var
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Muitas possibilidades de revisões poderiam ser exploradas, mas respeitando acordos discutidos e abraçados pelos dirigentes. Também é importante ouvir as manifestações dos expectadores que, afinal de contas, são os consumidores não somente do espetáculo, mas dos produtos a eles oferecidos. E, numa análise mais verdadeira, são os torcedores os responsáveis pela manutenção ou não das ideias manifestas. Apesar do espetáculo e da paixão, existe um produto exposto que precisa ser adquirido e isso tudo passa, pela aprovação das massas consumidoras. Se vender, é claro, tá aprovado; se não, precisa ser revisto.