
Segue o Jogo!
por Paulo Rogério

Capítulo 2: Mãe é Mãe
“Na verdade, temos que ter, no mínimo, duas mães: uma em casa e a outra que levamos para os jogos que apitamos”
Mãe é mãe. Bem mais do que um clichê, essa afirmativa traduz um entusiasmo fora do comum. Por força das circunstâncias, a mulher é uma criatura forte, decidida e indispensável à vida, sejam quais forem as condições. No cenário do futebol, pode-se contar com as mais variadas personagens, e muitas delas já se tornaram folclóricas no imaginário popular. A mãe do árbitro, seguramente, é uma dessas.
Os insultos e xingamentos são algumas heranças indesejáveis, mas que fazem parte desse mundo. Além de variadas, tais afrontas são inevitáveis, mesmo que algumas das equipes sejam supostamente beneficiadas. Noutras palavras, ganhando ou perdendo, independente das marcações em campo, a mãe do juiz sempre será diretamente responsabilizada. Faz parte do jogo.
Alguns árbitros tentam resolver a questão de forma prática e objetiva, como diz Marcelino Tavares: “Na verdade, temos que ter, no mínimo, duas mães: uma em casa e a outra que levamos para os jogos que apitamos. Quando entramos em campo, temos que nos concentrar na partida, entendendo que essa é a nossa responsabilidade. É chato, mas temos que superar a situação”. Em meio à carga emocional dos torcedores mais exaltados, o melhor é sair pela tangente, tentar não encrespar com os insultos e provocações que fluem naturalmente durante as partidas de futebol, creditadas à cultura do esporte.
“Não tem como a mãe não se incomodar, mas ela acaba aceitando a situação, focando na realização do filho”, diz Jucelino Miranda. Resta, portanto, a superação que se busca, tentando ajustes, permitindo-se a aceitar aquilo que já está impregnado no comportamento do torcedor brasileiro. Afinal, futebol é movido pela emoção e, naturalmente, às vezes foge ao controle, como todo sentimento humano. Pode ser encarado como um elemento cultural, embora, haja necessidade de se respeitar o próximo e, principalmente, a mãe.
“Tudo tem a ver com as emoções”, diz Jucelino Miranda, “a carga emocional que nos move ao futebol é muito significativa; e isso é um fator importante a ser considerado em todos os níveis, inclusive no que diz respeito ao relacionamento materno, o primeiro e mais forte relacionamento humano, o que une mãe e filho ou filha. Os mistérios que se fazem presentes nesse relacionamento são quase indecifráveis. Seria impossível quantificar a emoção que movem nossas vidas e, logicamente, tudo isso mexe com nossos sentimentos, orienta os nossos comportamentos e determinam muitas das nossas ações”.
Marcelino Tavares relembra que atuar como árbitro foi uma decorrência da paixão que sempre teve pelo futebol. “Eu sou o filho caçula de uma família de quatro irmãos. Meu pai, seu Jerônimo e dona Consuelo, minha mãe, tiveram quatro filhos, sendo eu o mais novo. O irmão mais velho (do que eu) me levava puxado pelo braço aos estádios de futebol, desde os 7, 8 anos de idade", relembra. O juiz conta que, aos nove anos, foi a um jogo noturno, em Recife, que respira futebol. "Domingo faz parte da programação a ida ao estádio de futebol, é a cultura da cidade. Em tudo isso, sempre contei com o apoio incondicional e o orgulho declarado de Dona Consuelo, a minha mãe.”
Com o passar do tempo, as situações vão encontrando as formas mais adequadas, e a aceitação se torna inevitável. Tudo parece apontar para a realização pessoal, já que não seria exagero afirmar que a mãe sempre aceitará aquilo que o filho ou filha escolher para o futuro, como confirmam as palavras de Jackson Silveira: “Minha mãe me falou, quando eu disse pra ela que queria ser juiz de futebol: Fazer o quê, né, não? Não era exatamente o que eu queria, mas aceito, se é isso que lhe faz feliz!”.
O mais curioso é que não importa o que aconteça, o culpado sempre será o árbitro. Isso é o resumo de toda e qualquer partida de futebol, e o alvo sempre será a mãe do juiz mesmo por parte da torcida do time vencedor. Não existem elogios para o juiz, e a forma mais comum de atingi-lo sempre acontecerá envolvendo, primeiramente, a sua genitora. Situação que mais parece ter sido combinada pelas torcidas das equipes envolvidas, e nisto elas parecem ter o mesmo pensamento.
Os árbitros lembram de muitos dos dramas vivenciados por suas mães, marcados por paixões e descontroles emocionais de torcedores nos campos nos mais diferentes estádios de futebol por todo o Brasil. São situações hilárias, mas também emocionantes, apaixonantes. Os panos de fundo são marcados por muitos xingamentos, ofensas e até mesmo ameaças físicas.
O árbitro e presidente do Sindicato de Árbitros de Mato Grosso (Sindmat), Edilson Ramos da Mata, ressalta a importância do carinho e apoio recebido de sua mãe, Maria Dete da Mata.
Ela nunca deixou de apoiar o filho no desempenho da arbitragem, até mesmo com a presença física nos estádios, recebendo os xingamentos e ofensas. O juiz admite achar normal o comportamento do torcedor, porém com reservas “Eu levava a minha mãe pro estádio, sim, e lá eles poderiam até xingar, mas logo a garganta doía e eles paravam. O que eu não aceitaria é se o torcedor viesse me agredir fisicamente, aí é diferente” diferencia Edilson da Mata.
O fator de ser policial militar, segundo Da Mata, facilitou o trabalho como juiz de futebol, no que diz respeito à paciência: “Os torcedores tentam abalar o nosso psicológico, então nós temos que ter um controle emocional muito grande. O árbitro é igual um policial, tem que agir com autocontrole. Isso eu fazia muito bem, pois além de ser árbitro eu sou subtenente da Polícia Militar e meu controle emocional é muito grande”
Como toda mãe, Dona Maria Dete da Mata sente orgulho do filho que teve a honra de apitar a última partida realizada no antigo estádio Governador José Fragelli, “o Verdão”, que foi demolido, dando lugar à Arena Pantanal, em Cuiabá (MT), por ocasião da Copa do Mundo do Brasil, 2014. Ao todo, Da Mata chegou a arbitrar em 566 jogos, tendo sido bastante premiado. As palavras de Dona Maria Dete revelam a tietagem pelo filho: “Para mim foi muito bom, gostei muito e fiquei muito feliz. Não me importei e nem incomodei com as palavras que os torcedores falavam no campo. Não me atingia e por isso não resultava em nada”.
“Ela está acostumada e habituada ir para a beira do campo ajudar, torcer, fazer essas coisas...”
Dona Inácia Raimunda da Silva Paixão tem 72 anos, e sempre foi muito ligada ao esporte. Conhecendo a realidade contextual do futebol, sabe muito bem tirar de letra essa conversa de insultos e ofensas dirigidas às mães dos juízes. Apesar do total apoio ao filho, Dona Raimunda receava pelas viagens a determinados lugares, pois temia pela segurança física de Alinor da Silva Paixão, que começou apitar as partidas de futebol amador desde 2001, fazendo sua estreia no profissional em 2004.
Perguntado sobre a participação de sua mãe sobre o apoio à sua escolha, Alinor declara que sua mãe tem uma particularidade: “Em toda minha vida eu e minha família trabalhamos com o futebol, até hoje temos time. Então ela está acostumada e habituada ir para a beira do campo ajudar, torcer, fazer essas coisas do futebol amador”. Alinor ressalta que sua mãe se preocupava com as situações difíceis em que às vezes o árbitro de futebol se envolve, mas que nunca deixou de apoiá-lo em sua carreira.
Com o passar do tempo e a promoção ao profissionalismo, Dona Inácia ficou mais tranquila com a profissão do filho, tentando reagir da melhor maneira possível, torcendo pelo seu sucesso e bom desempenho naquilo que escolheu.
“...sua mulher deve estar com outro, e você aqui apitando jogo...”
Dona Argemira Alves Folha é uma autêntica nordestina de fibra, mulher batalhadora e valente daquelas que não se curvam diante de quaisquer desafios, dores ou traquinagens da vida. Em resumo, uma baiana legítima e mãe de Aurélio Oliveira Folha, o Tutu, que simplesmente resolveu ser juiz de futebol.

Aurélio Folha, o terceiro da esquerda para a direita, filho de Argemira (D. Mirinha)
Arquivo pessoal
De acordo com Aurélio Folha, o juiz, ao entrar em campo, deve ‘esquecer’ que tem mãe ou esposa e se concentrar tão somente na partida que vai arbitrar, pois é isso que se espera de um juiz profissional.
Deve estar pronto, em sua opinião, para receber as ofensas e também ver os seus entes queridos serem objetos de xingamentos e atitudes hostis. Tudo isso faz parte do espetáculo, sem, contudo, que ele e nem ela sofram agressões físicas. Muitos comentários são até cômicos, como o que recebeu certa vez: “Eu estava no campo, quando um torcedor me falou: ‘sua mulher está com outro, e você aqui apitando jogo, roubando para o Botafogo’. Casos, como esse, são constantes e não devem ser considerados”, revela Aurélio Folha.
Árbitro aposentado da Federação Paraibana de Futebol, Aurélio sente saudades das palavras incentivadoras de sua genitora, que todos chamavam carinhosamente de Dona Mirinha. “Minha mãe sempre me apoiou porque entendia que eu estava fazendo o que gostava. Sempre trabalhei, e a arbitragem não me prejudicou em nada, pelo contrário, me ajudou a construir tudo o que possuo”.
Como não poderia ser diferente, na vida profissional de Aurélio Folha, toda a família acaba por se envolver. “Certa feita estava apitando um jogo muito difícil, por exemplo, quando um policial que estava perto do meu filho, disse: ‘Seu pai é bravo assim também, em casa?’ Então ele respondeu: ‘Não! Porque nós não somos mal-educados!’ Daí ele não disse mais nada”.
O ideal deve ser sempre entender que a paixão é algo absolutamente natural, exceto os exageros e crimes cometidos por pessoas desequilibradas. Em alguns momentos, a situação parece querer fugir do controle, como aconteceu com o Aurélio Folha, conforme relata a esposa, Arlete Cardoso Folha: “Muitas vezes eles saíram protegidos por viaturas. Até eu, um dia, estive nesse meio aí, e tive que sair escoltada pela polícia. Quando a gente saía de uma cidadezinha pequena, próximo aqui em João Pessoa. Quando os resultados eram desfavoráveis ao público da cidade ou ao time mandante. Aí a gente tem essa preocupação, mas a polícia ficava lá preparada”, detalha Arlete. Para ela, em resumo, “a arbitragem na vida de Aurélio não teve grandes problemas, pois sempre atuou com seriedade, honestidade, procurando fazer sempre o melhor, dentro daquilo que era correto na arbitragem. Aqui na Paraíba, graças a Deus, o Senhor nos abençoou até hoje”.
“Lógico que são desgastantes todas aquelas ofensas, mas temos de aprender a desconsiderar...”
Sálvio Spínola Fagundes Filho é um famoso e bem-sucedido árbitro brasileiro. Pertencente ao quadro da Fifa, sempre está apitando clássicos do futebol brasileiro e muito requisitado pelas federações estrangeiras.
Muito seguro em suas marcações e profundo conhecedor das regras, Sálvio Spínola confirma que sempre contou com o apoio de sua mãe no tocante à carreira de árbitro de futebol. “Sempre tive um relacionamento ótimo com a minha mãe. Lógico que são desgastantes todas aquelas ofensas, mas temos de aprender a desconsiderar, pois sabemos que a nossa mãe não é aquela que sempre é xingada”
As histórias são as mais variadas, seja no tocante aos xingamentos ou a fatos curiosos ocorridos pelo mundo afora. Sim, onde elas estão presentes sempre haverá amor, proteção, cobranças e muita torcida pelo sucesso.
É o caso de Dona Francisca Busiz Braghetto, mãe do árbitro Rodrigo Braghetto, da Federação Paulista de Futebol. Ela sempre se mostrou uma ferrenha defensora de sua cria, mas diz enfrentar muito nervosismo durante todas as partidas em que o filho atua. Nas palavras de Rodrigo, a comprovação é visível. “Minha mãe é supertranquila. Mas, no começo da minha careira, quando ela estava presente em uma partida do América, de Minas Gerais, contra o Paulistano, na Copa São Paulo, foi complicado. Foi um jogo super nervoso e, naquela época, ainda não tinha essa história de não jogar objetos no campo. Jogaram um monte de coisas, pilhas, radinhos e ela ficou bastante apreensiva”. Dava pra ser diferente?
“Gostei demais, pois ganhei uma flor dele...”
Ser árbitro de futebol, num país polarizado por inúmeras questões, pode se constituir num enorme desafio. E isto pode ser experenciado por Sônia Gomes da Silva, a mãe do juiz Ronei Cândido Alves, nascido em Ibiá e criado em Formiga, Minas Gerais. Quando decidiu ser árbitro, sua mãe ficou perplexa, mas decidiu aceitar e apoiar o filho em sua decisão. Ronei começou a carreira esportiva como zagueiro, mas acabou desistindo. “Quando ele disse aqui em casa que não iria mais jogar bola e que iria ficar apitando, eu e o pai dele ficamos assustados com medo de ter briga no campo. Mas vimos que era o que ele queria, aí o apoiamos, como fazemos até hoje”, afirma, com orgulho, dona Sônia.
No entanto, os pais não escondem os sustos e pressões constantes, a cada nova partida. Tendo que lidar com os xingamentos, a decisão foi ter que se acostumar, pois o amor a levava nesta direção e o talento e a competência do filho que já foi escolhido, por dois anos, como o melhor árbitro do Campeonato Mineiro, lhe trouxe certa tranquilidade e, ao mesmo tempo, muito orgulho. Ela confessa não ter ido muitas vezes ver o filho atuando no campo, mas nas poucas vezes que o viu, ficou muito satisfeita: “No estádio, fui uma vez só, aqui em Formiga. Gostei demais, pois ganhei uma flor dele e ouvia as pessoas na arquibancada me dando parabéns pelo meu filho. Foi muito legal!”
Acompanhar o crescimento do filho tem sido, segundo dona Sônia, muito bom, mas não esconde as tensões com o peso das responsabilidades adquiridas por ele, inclusive quando se tornou árbitro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), passando a dirigir partidas de maior envergadura e, portanto, de maior cobrança. A julgar pela torcida da mãe, ele sempre deu conta, e com sobra, da confiança que lhe foi atribuída pelo talento e habilidade.
“Aquele homem desmoronou e chorou porque tinha acabado de perder a mãe”
Conhecer histórias de mães de árbitros, em sua maioria, tem conotações engraçadas e outras emocionantes. No entanto, o que aconteceu com o juiz romeno Ovidiu Hategan superou muitas dessas histórias. Quando estava apitando um jogo entre as seleções da Alemanha e da Holanda, jogo válido pela Liga das Nações, no estádio Veltins-Arena, na cidade de Gelsenkirchen, na Alemanha, foi avisado, no intervalo do jogo, sobre a morte de sua mãe. A reação do árbitro foi, no mínimo, muito corajosa e profissional: ele decidiu voltar ao campo do jogo e terminar a partida.
Como toda competição, evidentemente, já havia muitas pressões sobre seus ombros, pois os donos da casa, os alemães, corriam o risco de cair para a segunda divisão do campeonato, o que acabou acontecendo por conta do resultado 2 a 2. O que se imagina é a superação diante de uma notícia tão forte quanto a que recebeu e ainda assim continuar com o seu trabalho, quando poderia ter simplesmente substituído pelo quarto árbitro, algo bastante comum em circunstâncias as mais diversas.
O juiz, ao terminar a partida, não pôde segurar as lágrimas e desandou a chorar. Ele foi prontamente consolado com um abraço do zagueiro holandês, Van Dijk, que se aproximou dele e, percebendo a sua dor lhe foi solidário, e fez o seguinte comentário: “Aquele homem desmoronou e chorou porque tinha acabado de perder a mãe. Desejei sorte e disse que ele tinha apitado bem. Foi um gesto pequeno, mas espero que tenha ajudado”.

Van Dijk consolou o árbitro romeno Ovidiu Hategan
REPRODUÇÃO/TWITTER
A reação de comentaristas, técnicos, jogadores e outros envolvidos só poderia ter sido de consternação e apoio irrestrito a um momento tão delicado e difícil de ser superado, mas o árbitro romeno Ovidiu Hategan soube portar-se de maneira firme, como certamente deve ter aprendido com a mãe, quando em vida.
“A gente sofre, lógico, porque esculhambam a gente, mas é normal”
É verdade, os impropérios são impublicáveis e os riscos causam verdadeiras cicatrizes emocionais. Mas para ter êxito naquilo em que se acredita é preciso coragem e muita convicção, como faz a Dona Cristiane, a mãe do juiz pernambucano Victor Albuquerque. “Ela foi em um jogo que apitei e não teve nada de muito grave. Depois ela foi em outro e ouviu tantos xingamentos, que disse: ‘Essa é a segunda e última vez que venho’”, diz o juiz da Federação Pernambucana de Futebol que sempre foi incentivado pela mãe, apesar de tudo.
Cristiane dá boas risadas, mas não descuida da atenção para com o trabalho do filho. “É uma profissão e é o que ele quer fazer. Ele gosta muito de futebol. Então eu dou a maior força a ele para fazer curso, faculdade. A gente sofre, lógico, porque esculhambam a gente, mas é normal. Mas eu ainda vou para algum jogo dele em estádio. Até porque eu gosto muito de futebol”, afirma.
Nessas horas, o melhor é ter um bom senso de humor e bastante maturidade para entender o verdadeiro valor das coisas que estão jogo. Bem como assimilar que a própria vida é cheia de riscos, independente da profissão. Até mesmo as ofensas mais improváveis fazem parte da vivência da profissão, muito embora não se deva permitir que se chegue às vias de fato.
“Eu não torço para nenhum time, eu torço para eles...”
Se em meio a tantas pressões é muito difícil ter um filho árbitro de futebol, imagine ter o triplo! Sim, isso mesmo, Tereza Oliveira é a mãe de três árbitros de futebol, dois deles bastante conhecidos: Paulo César de Oliveira e Luiz Flávio de Oliveira. O primeiro atualmente é comentarista de arbitragem, enquanto o outro ainda está em pleno exercício da função. O terceiro filho é Jorge Luís Oliveira, que comanda partidas nas ligas amadoras de Cruzeiro, a 220 km de São Paulo. E, como se não bastasse, ainda tem uma neta que decidiu seguir a mesma carreira, a Patrícia Carla de Oliveira, árbitra assistente da Federação Paulista de Futebol.
Mãe de 11 filhos homens (portanto um time inteirinho), Tereza não esconde a sua alegria pelo trabalho dos filhos que seguiram a carreira de árbitros de futebol e, como as mães comuns e corujas, não consegue disfarçar o nervosismo e torcida pelos rebentos. “Eu só vejo eles entrarem no campo. Depois eu não assisto, que eu não entendo de futebol. Eu não torço pra nenhum time, então eu torço para eles, quando eles tão apitando. Eles estão fazendo a coisa que gostam. A torcida xinga, mas isso não me incomoda. Ser mãe de árbitro é muito bom”, confessou Tereza Oliveira em entrevista concedida antes de seu falecimento, em novembro de 2020.

D. Tereza, mãe de Paulo César e Luiz Flávio
Imagem de internet
A garra e determinação de Tereza na criação dos filhos foram marcantes na formação de seus descendentes, o que pode ser constatado através do trabalho exercido fielmente e reconhecido por todos. Ela foi a maior incentivadora dos filhos e lutou para sustentá-los, pois o companheiro partiu há 40 anos, além de perder um dos filhos, o primogênito, com apenas 11 meses de vida. Uma história que precisa ser reconhecida, como a de muitas outras mães batalhadoras, espalhadas por esse imenso país do futebol.
“Mãe aguenta tudo”
Ser mãe de árbitro é difícil; imagine, então, ser mãe de árbitra numa sociedade marcada, historicamente, pelo preconceito e atitudes machistas. Dona Dolores é mãe de Isabela Botelho da Silva, da Federação Amazonense de Futebol. A mãe não consegue disfarçar a tietagem aberta e escancarada, aliás, como todas as genitoras em relação aos filhos e filhas.
No entanto, Dona Dolores não hesita em estabelecer, igualmente, um olhar profissional, fazendo uma correta separação entre a paixão e o racional, conforme suas próprias palavras. Dar apoio e, quando necessário, fazer cobranças justas e desafiadoras fazem parte do processo de acompanhamento.
Ao se referir à filha, Dona Dolores expressa, com muito equilíbrio: “Ela se concentra desde o dia anterior de algum jogo, muito responsável. Por isso dói demais quando alguém a chama de burra, de idiota. Mas se é importante que eu esteja lá, eu aguento. Mãe aguenta tudo. Já pensei em discutir, mas prefiro me comportar como mãe de uma profissional”
Numa sociedade tão polarizada, marcada por estereótipos, sempre houve motivo de muita comemoração. Na opinião de Dona Dolores, ver a filha ocupando um espaço importante e, além domais, não identificar em nenhuma oportunidade vê-la ser ofendida apenas por ser mulher, o que representa um avanço bastante significativo, uma evolução que merece ser comemorada e, ao mesmo tempo, dar bastante publicidade.
“Sabia que ela é minha filha? Não fala assim com ela!”
A árbitra Fernanda Colombo Uliana, casada com o também juiz Sandro Meira Ricci, atualmente comentarista de arbitragem na televisão, destaca o importante papel de sua genitora, dona Vera Lúcia, quanto ao apoio que recebeu por ocasião de sua escolha para seguir na carreira, como juíza de futebol. Foram dias, meses e anos de muito esforço, trabalho e experiências marcantes.
Exigências como a distância de casa e, consequentemente, a ausência nas datas festivas eram necessárias em função de um propósito maior, o da realização profissional. O duro começo na arbitragem amadora, sem torcida, sem televisão ou rádio e a falta de estrutura sempre se fizeram percebidas, mas totalmente compreensível diante daquilo que se pretendia alcançar. Esses e tantos outros elementos que bem poderiam inibir ou desanimar qualquer um, na verdade acabaram sendo um impulso para Fernanda Colombo realizar o seu sonho.
Fernanda também percebeu que o importante apoio e presença da mãe fez com que ela conseguisse se solidarizar com outras mães de árbitros e árbitras; é a tal da empatia. Uma das experiências marcantes, é descrita da seguinte forma: “Uma vez, ela se sentou em meio aos torcedores para ver um jogo meu. Claro, a torcida não se conteve. Assim que começaram a me xingar, ela chamava torcedor por torcedor e falava: ‘Sabia que ela é minha filha? Não fala assim com ela!’ Eles ficavam envergonhados e paravam com as ofensas. Imagina, arrumar briga com centenas de torcedores? Só sendo mãe mesmo, uma leoa”, relembra a árbitra.
Histórias à parte, o mundo feminino é um imenso e encantador oceano. As relações envolvendo mães, filhos e filhas são deslumbrantes. Existe um universo inteiro a ser descoberto. E o futebol, como o esporte de multidões, exerce um papel de destaque em meio a toda essa questão. Há muitas experiências a serem partilhadas e muitos bons exemplos a inspirar tantas vidas.